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Fato singular

Mau uso do poder só é pior do que a ilusão de ter em mãos algum poder

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

O conceito de poder é amplo, englobando tanto a força física ou coercitiva quanto a influência e autoridade legítima. Legítima, é bom que se repita. O poder não está na caneta, na eloquência ou nos anseios eleitoreiros, mas na autoridade moral e política de quem o exerce. Ele não é um imperativo de autoridade, mas um substantivo que garante a possibilidade de agir com força, mas com serenidade e honestidade. Quando um homem público abusa de suas prerrogativas, o resultado é sempre o mesmo: o achincalhe, a perda de respeito e o arquivamento do trabalho.

No popular, ele pensa como talarico, sinônimo de fura-olho, mas trupica nas palavras, nos gestos, no conteúdo e morre na praia. Dizer que o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado, agiu de acordo com as normas das quatro linhas é o mesmo que alguém jurar que conhece todas as regras da boa convivência entre os poderes. Na melhor das hipóteses, o parlamentar fez jus à célebre frase atribuída a Abraham Lincoln, para quem a forma mais fácil de se conhecer uma pessoa é dando-lhe poder. Na pior, a excelência sergipana confundiu o plenário da CPI com os palanques de seu simpático Estado.

Para onde se queira ir, o fato é singular: pau-mandado ou simpático às causas conservadoras, Vieira claramente fugiu dos objetivos iniciais da comissão, partindo para os finalmente recomendados pelos superiores, transformando a CPI do Crime em CPI do Supremo Tribunal Federal. Com a cabeça assentada nas urnas eletrônicas, o moço acabou caindo do cavalo. E caiu sentado no corporativo formigueiro do STF. Preocupado em atender ordens de cima e se apresentar aos eleitores mais à direita, o representante do MDB, mesmo sem perceber, obrigou o inquestionável peemedebista Ulysses Guimarães a se virar no túmulo.

Disposto a emparedar os ministros Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, Alessandro Vieira até agora é o único emparedado. Quando criada, a comissão tinha por objetivo investigar o avanço das facções criminosas e apurar o envolvimento de autoridades dos Três Poderes com as maracutaias do ex-mantenedor do Banco Master. Não fez nem uma coisa e nem outra. Estimulado pela vaidade ou pela necessidade de ter apoio conservador na tentativa de se reeleger ao Senado, Vieira preferiu se autopromover.

Fez mais. Instrumentalizou a CPI, dando a ela um caráter político-eleitoreiro. Com isso, ele deixou de atender os brasileiros, cuja maioria aguardava ansiosa pelos nomes dos beneficiários do escândalo do Master. Não tenho e não desejo ter recibo para defender os ministros do STF. O que penso é de fácil constatação: ao atacar três dos atuais dez membros da Corte Suprema, Alessandro Vieira jogou a instituição no mesmo lamaçal do crime organizado.

Ou seja, por medo da reação das facções ou por vontade própria, o senador perdeu tempo, enganou o povo, enrolou os pares que queriam apurar a relação nada republicana de figuras de ponta da política brasileira com o crime. Ficou o dito pelo não dito. Vieira deve ter percebido tarde demais que o mau uso do poder só é pior do que a ilusão de algum poder. Certamente o tiro que ele deu no próprio pé lhe renderá muito mais aporrinhação do que votos. Previsível, o risco é grande. Em outubro, mais precisamente no dia 4, o Brasil saberá quem tem razão.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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