Trem
Memória em chamas
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Sexta-feira, dia de trem.
O rapaz – saindo da adolescência – corria para a estação de trens da Paulista.
Destino: Adamantina, interior de São Paulo.
Lá o esperava Débora, a garota have metal antes dele menos conhecer a porrada do novo rock pesado.
Pai juiz de direito, maçom, família tradicional todas essas tranqueiras de bom comportamento.
Desceu do trem e seguiu um pouco inseguro.
– Bom dia, doutor Aníbal.
– Bom dia, meu filho. Entre, entre, a Debinha está no estúdio ouvindo discos.
Nunca tinha sido tratado assim com tanto carinho fora do amor de pai e de mãe.
Entrou.
Olhou para Débora e veio o grande beijo.
Naquele dia conheceu a banda Deep Purple e o LP BURN!
Dezessete anos e filha de juiz maçom de direito.
A garota pegou o cara e abriu a luz.
No final do dia, o rapaz pegou o trem e retornou para a cidade de Tupã há uns 50 km dali.
Com o passar dos dias – e os encantos da adolescência -, o namoro foi esfriando e as viagens de trem todas as sextas-feiras foram ficando escassas até desaparecerem para sempre.
Débora foi para os Estados Unidos num projeto de intercâmbio estudantil.
O rapaz ficou mais alguns anos pela região e depois se mandou para fazer o Cursinho Vestibular na capital, São Paulo.
Nunca mais tiveram notícias um do outro, mas ele levou para toda a vida a chama daquele amor e o som inesquecível do Deep Purple: BURN!
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Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e, nos dias de tédio, incendiário total ao som de BURN! Vive na Guarda do Embaú, vila de pescadores no litoral Sul de SC.