Tribunal do Júri
Mentiroso ou ótimo contador de histórias
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Lá estava aquele senhor de cabelos bem branquinhos, deitado no confortável sofá da sala. No tapete, a neta, não mais que 12 anos, ouvia atentamente cada palavra daquela boca, que ostentava um belo bigode logo acima. Ele, que quase sempre conquistava a simpatia das pessoas, possuía aquilo que costumamos chamar de carisma.
Passara anos advogando, e, como ele mesmo falava, sempre havia muitas histórias para contar. E não foi diferente naquele dia, quando ele começou a falar sobre um caso ocorrido há anos. Era a respeito de um suposto homicídio, onde o réu fora acusado de matar um desafeto com um tiro de pistola. O tribunal do júri, segundo o avô, era um show, e ele teria que conquistar a plateia para salvar a pele do seu cliente.
— O sujeito já estava condenado, bastava olhar para as expressões faciais dos membros do júri. A minha tese é de que a arma havia disparado sozinha, mas o promotor não concordou e disse que aquela arma não disparava sozinha.
— E a perícia, vô?
— Não tinha perícia, eu precisava provar ali mesmo que a arma disparava sozinha. Aquela era a minha única chance. Então, peguei a arma e a joguei no chão. E não é que a pistola disparou? O júri ficou surpreso também e, então, absolveu o meu cliente.
— Ah, que bom que o senhor conseguiu fazer com que um inocente não fosse preso.
— Ah, não! Ele era culpado!
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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