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Filho da pátria

Modismo da rejeição prova que brasileiro procura novos rumos

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Foto/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Reprodução das Redes Sociais

Demorou, mas está chegando o dia – ou já chegou – em que a razão irá se sobrepor à emoção, criando neologismos políticos inimagináveis há uma ou duas décadas. Um deles talvez seja a politicologia, que pode ser definida como uma admirável ciência que jamais será explicada. Politicagem, politiqueiros, politicalha, politiquice, politiquismo e politicaria são termos batidos e de fácil conclusão. Basta atentarmos para o sufixo adicinonado à palavra primitiva para alcançarmos o vocábulo desejado. Sem achincalhes e objetivamente, as locuções não têm conteúdos semânticos, tampouco sintáticos ou morfológicos. Elas são reais e, sem necessidade de ressignificar ou estudar a configuração ou a aparência externa do sujeito, significam exatamente o atual estágio do eleitor brasileiro, que vê os políticos apenas como representantes deles mesmos ou, quando mais honestos, da família.

No português menos ortodoxo, podemos dizer que, vencidos os períodos de namoro, noivado e casamento infelizes, chegou a hora de o povo recuperar o tempo perdido com a lamentável distração observada nas três ou quatro últimas eleições. Alguns cientistas creditam o vacilo à força do hábito, isto é, votar no mais lindinho, no mais popular, no coitadinho ou, o que é pior, naqueles que não revelam seus propósitos. É uma mistura de ficção e realidade. Como escreveu no fim dos anos 40 o jornalista Aparício Torelly, o Barão de Itararé, chegará o dia em que o eleitor perceberá que político e anjo são da mesma linhagem: são pessoas e não passarinhos. Por isso, erram e sujam os caminhos percorridos e os que ainda faltam percorrer.

Reiterando o que disse na abertura da narrativa, visível a olho nu, o fenômeno rejeição atingiu a todos, obrigando os que assumem a condição de vendedores de ilusão a levantar a máscara e mostrar a face de negociantes do desejo alheio. Uma das piores feridas emocionais, a rejeição provavelmente é um dos sentimentos mais experimentados durante a vida. Seja por parte do par amoroso, dos filhos, irmãos, de um amigo, parente, colegas de trabalho ou eleitores, a sensação de que nossa presença não é desejada ou não é mais bem-vinda pode deixar cicatrizes profundas, do mesmo modo que são grandes a decepção e a desonra que os rejeitados de hoje eventualmente causaram ontem. É a lei de causa e efeito.

No caso específico da Presidência da República, a relativa honestidade deixou de ser predicado. Nesse deserto de homens íntegros e de ideias verdadeiras, sobram estranhas coincidências: entra um, sai outro e nada muda. O fim do mundo para o Brasil e para os brasileiros está cada vez mais próximo. Precisamos de receitas uteis para manter vivo o espírito solidário e alegre do povo da Terra Brasilis. Variando conforme o instituto, a má vontade do eleitorado com os presidenciáveis do primeiro escalão é notória. Pesquisa do Datafolha indica que a rejeição de Jair Bolsonaro é de 59%, menos cinco pontos do maior índice já atingido. A de Luiz Inácio alcançou 38% e a de João Dória, 37%.

Ciro Gomes, José Luiz Datena, Luiz Henrique Mandetta, Eduardo Leite e Rodrigo Pacheco surgem na sequência, respectivamente com 30%, 19%, 18%, 15% e 14%. Na outra vertente, o potencial de votos de Lula é de 52,5%, contra 34,5% de Bolsonaro. Além da polarização entre o atual e o ex-presidente, vale acompanhar a disputa interna no ninho tucano entre os governadores João Dória (SP) e Eduardo Leite (RS). Considerado azarão, Leite tem baixa rejeição e poucos vícios políticos, o que deve facilitar sua futura ascensão. Entretanto, para se cacifar e começar a aparecer como candidato, o gaúcho precisa vencer pelo menos dois complicados paredões: as prévias do PSDB, em novembro, e a intenção da maioria tucana em não ter postulante à Presidência da República.

A batalha final é ainda mais difícil: tirar votos de Luiz Inácio e de Bolsonaro em outubro de 2022. Cansado de tanta baboseira política, ainda não tenho posição definida. A única certeza é de que preciso me reinventar. À beira do caos, o Brasil necessita urgentemente de novos hábitos pessoais, sociais e eleitorais. Somos reconhecidamente craques na arte de dar a volta por cima. Façamos do limão uma limonada. Temos pouco mais de uma gestação para escolhermos o nome do futuro filho da pátria. E não importa que o ventre seja de centro, esquerda ou direita. Importante é que seja do bem, da paz, da união, do trabalho, da verdade e que pense no país como um verdadeiro filho da pátria. Eu disse da pátria.

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