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O ‘domador de jacarés’

Morador ganha fama ao capturar répteis que invadem o meio urbano

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Divulgação

O bairro de Jardim São Paulo, localizado na Zona Oeste do Recife, desenvolveu uma dinâmica peculiar e desafiadora de convivência com a fauna silvestre. Quem reside nas proximidades do canal Guarulhos já se acostumou a encontrar jacarés circulando pelas vias públicas, escondidos embaixo de automóveis e até mesmo invadindo as residências da região. Essa exótica e perigosa rotina urbana costuma se intensificar consideravelmente durante os períodos de chuva na capital pernambucana, momento em que o nível da água sobe e força o deslocamento natural dos répteis para além de seus limites habituais.

Diante da frequência dessas aparições inesperadas, a própria comunidade acabou elegendo uma figura central para gerenciar as situações de crise e lidar com os animais. Irinaldo João da Silva, amplamente conhecido na vizinhança pelo apelido de Tadinho, tornou-se uma celebridade local e recebeu informalmente o título de “domador de jacarés” do bairro. Morador da Rua Queluz há mais de 30 anos, ele passou a infância e a juventude observando o comportamento das espécies no canal vizinho, acumulando uma experiência empírica que hoje o transforma no primeiro socorrista acionado pelos vizinhos.

A fama de Tadinho ultrapassou as fronteiras físicas de Jardim São Paulo após uma de suas capturas, realizada no mês passado, ser gravada por testemunhas e compartilhada nas redes sociais. No registro audiovisual, o morador aparece controlando e recolhendo um filhote de jacaré com o auxílio improvisado de um tridente de jardinagem. Apesar do sucesso da ação e da destreza demonstrada, a intervenção individual gerou alertas imediatos por parte das autoridades de segurança pública, que classificam a conduta como altamente arriscada para leigos.

De acordo com os relatos do próprio Irinaldo, o papel de resgatador surgiu de maneira totalmente espontânea e hereditária dentro de sua família. Ele explica que aprendeu as técnicas de aproximação ao observar o próprio pai, que também morava à beira do canal e realizava a contenção dos répteis que avançavam sobre as moradias décadas atrás. Tadinho encara a atividade como um serviço comunitário essencial, pontuando que a vizinhança confia plenamente em sua capacidade de afastar o perigo das portas das casas sem ferir os espécimes.

Quando os animais que saem do canal Guarulhos apresentam dimensões expressivas, o protocolo informal muda e Tadinho conta com o suporte braçal de outros moradores corajosos da rua. A união comunitária já foi testada em episódios marcantes nos anos de 2013 e 2016, datas em que jacarés de aproximadamente dois metros de comprimento surgiram no asfalto. Nessas ocasiões de grande porte, o grupo de vizinhos se mobilizou de forma coordenada para imobilizar os répteis gigantescos, utilizando cordas grossas para amarrar o focinho e o pescoço das feras.

O conhecimento prático de Tadinho sobre a população ecológica do canal é detalhado, e ele estima que o local abrigue atualmente uma colônia com cerca de 27 jacarés adultos e filhotes. O morador acompanha de perto a reprodução das espécies, monitorando uma fêmea que recentemente deu à luz uma ninhada de nove filhotes, os quais já apresentam sinais de crescimento. Além desse grupo, Irinaldo identificou uma segunda ninhada composta por cerca de oito filhotes menores, evidenciando o crescimento constante da população de répteis na área.

O balanço das atividades comunitárias aponta que, somente nos primeiros cinco meses de 2026, Tadinho já realizou três salvamentos bem-sucedidos nas imediações da comunidade. O acionamento do “domador” ocorre não apenas quando há risco de invasão domiciliar, mas também de forma preventiva pelos pedestres. Ao avistarem um jacaré rastejando nas proximidades das avenidas movimentadas, os moradores apressam-se em contatar Irinaldo para que a remoção seja efetuada a tempo de evitar que o espécime acabe atropelado pelo fluxo intenso de veículos.

As surpresas causadas pelos animais rendem histórias impressionantes de sustos no cotidiano da Zona Oeste. Tadinho relembra um episódio marcante em que um jacaré conseguiu transpor os limites da calçada e adentrar o terraço de uma residência sem que os moradores percebessem. O susto ocorreu quando a proprietária abriu a porta da cozinha e deu de cara com o réptil estacionado na entrada de sua varanda. Apesar do pânico gerado pelo tamanho do visitante, o animal manteve-se calmo, e a equipe de Irinaldo foi chamada para retirá-lo com segurança.

Apesar de passar a vida manejando uma das espécies de predadores mais temidas do país, Tadinho orgulha-se de nunca ter sofrido uma única mordida ou ferimento ao longo de suas incursões. Ele ressalta que, embora a convivência seja pacífica na maior parte do tempo e nunca tenha havido ataques contra humanos, os animais reagem quando se sentem ameaçados. O único registro histórico de acidente na região envolveu um cachorro de estimação que pulou no canal para recuperar uma bola de brinquedo e acabou abocanhado por um jacaré de 2,45 metros.

Paralelamente ao folclore local, o Batalhão de Policiamento Ambiental (BPA) adota uma postura rígida e orienta veementemente que a população jamais tente capturar jacarés por conta própria. A corporação, que registrou dez resgates oficiais em Pernambuco de janeiro a maio de 2026, alerta que o manejo inadequado pode ferir gravemente os cidadãos e causar traumas severos à integridade física do próprio animal silvestre. A Polícia Militar ressalta que o avanço dos répteis sobre as ruas alagadas e canais urbanos é um deslocamento natural induzido pelas fortes chuvas.

Como protocolo oficial de segurança até a chegada dos militares, o BPA recomenda que os cidadãos mantenham uma distância segura do réptil e evitem a formação de aglomerações barulhentas ao redor do bicho. É fundamental impedir terminantemente a aproximação de crianças pequenas e animais domésticos, além de manter a observação visual constante do local para repassar a localização exata do jacaré assim que os especialistas chegarem. As autoridades reforçam que a população não deve alimentar, tocar ou tentar prender o animal com barreiras improvisadas.

Caso a comunidade se depare com um exemplar cujo tamanho desperte pânico geral, a orientação de Tadinho coincide com a do Estado: acionar imediatamente o BPA, antigo Cipoma (Companhia Independente de Policiamento do Meio Ambiente). A Polícia Militar de Pernambuco garante que dispõe de equipes altamente treinadas e ferramentas apropriadas de contenção para efetuar o resgate técnico dos animais. Após a captura segura, os órgãos ambientais providenciam o transporte e a destinação correta do réptil, devolvendo o jacaré ao seu habitat natural de forma sustentável.

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