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Cultura

Mostra marca 50 anos da arte de Cildo Meireles

Daniel Mello

A trajetória do artista plástico Cildo Meireles é apresentada na exposição Entrevendo, aberta ao público a partir desta quinta (26) no Sesc Pompeia, em São Paulo. Os trabalhos mostram desde o início da carreira do artista, na década 1960, até a produção feita nos últimos anos.

A curadora Júlia Rebouças disse, no entanto, que não se trata de uma retrospectiva, mas uma antologia, devido a característica do artista de revisitar constantemente as próprias obras. “Ele continua reelaborando esses trabalhos, atualizando, projetando e pensando sobre eles,” destacou.

“A gente reúne um espectro muito diverso, não só de linguagens, mas de temas que o trabalho dele trata”, acrescentou a curadora sobre a mostra com 150 obras ocupando três espaços do Sesc, projetado por Lina Bo Bardi.

São trabalhos diversos, desde desenhos até as grandes instalações pelas quais é mais conhecido. “O começo da trajetória dele tem muito a ver com uma prática de desenho. Isso está presente na exposição. A gente tem um conjunto com pelo menos 25 desenhos figurativos e abstratos”, explicou Júlia.

Os desenhos e projetos muitas vezes vão se desdobrar em produções maiores anos depois.

“É muito comum que ele faça um projeto, um desenho, e, 20 anos depois, ele transforme isso em uma instalação”, disse a curadora.

Essa construção faz parte do modo como Cildo vai colocando suas ideias no mundo. “Ele está sempre trabalhando com diversas linguagens, pensando mesmo o que aquela ideia solicita de materialidade”.

Entre os temas que o artista trabalha estão as relações com os sentidos e as dificuldades de percepção. “A obra do Cildo também vai propor sempre a reversão dessa ideia de sentido, o não sentido, a falta de sentido, a sinestesia, a anestesia. O questionamento das ideias de verdade, de solidez, de certeza”, frisa Júlia.

Vão por essa linha os trabalhos da série Blindhotland, iniciada em 1970. “O título faz uma referência a essa terra quente e cega que, de alguma maneira, a gente vê um eco da experiência dele em Brasília. Ele morou algum tempo em Brasília, sobretudo na juventude nos anos 1960. Uma cidade que ainda estava em construçãoe que tinha muitos descampados”, explica a curadora sobre o título que, em inglês, significa terra quente e cega.

A instalação Eureka é uma das que compõem a série. “É uma instalação em que ele coloca um conjunto de bolas de borracha, todas do mesmo tamanho. Elas estão dispersas pelo chão. Olhando, elas parecem todas iguais. Mas quando você manipula essas esferas você percebe que elas têm pesos completamente diferentes”, afirmou Júlia sobre o trabalho que traz uma reflexão sobre como as aparências podem ser enganosas.

Um outro desdobramento é a obra Gueto, montada uma única vez antes desta exposição, em 1975, no Rio de Janeiro. Dessa vez, são colocadas várias bolas usadas em esportes, como vôlei, futebol e basquete, preenchidas com materiais diferentes (gás, estopa, areia) em uma quadra com rede.

“A ideia ali é que tem um conjunto de bolas e ainda que você reconheça aquelas bolas como parte de um jogo, de um esporte, as regras que valem fora dali não valem fora do trabalho. Porque as bolas têm pesos muito diferentes”, comenta a curadora a respeito da instalação.

“Ele trata dessa ideia do gueto, da periferia, da margem, propondo que ali é preciso haver uma outra sociabilidade, um outro pacto e regras e memórias que você traz de outras experiências ali não fazem sentido”, completa.

A exposição fica aberta ao público até o dia 2 de fevereiro de 2020, no Sesc Pompeia. Os trabalhos podem ser vistos de terça-feira a sábado, das 10h às 21h30. Domingos e feriados, das 10h às 19h30.

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