Demência política
Mundo justo depende do que damos, e não que recebemos
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Em sã consciência, normalmente não falo de pessoas, mas de instituições ou de figuras representativas. Como o Brasil do extremismo pulsante e da simpatia grotesca e assanhada pela tirania incomoda os que respiram democracia, hoje eu acordei fora do prumo. Por isso, culpo o inconsciente por eventuais inconvenientes. O que não posso deixar passar são as escolhas de parte do povo norte-americano e do clã Bolsonaro. Tento, tento, mas não consigo uma explicação capaz de justificar a idolatria desse povo ao senhor da guerra e da família a Donald Trump, déspota vingativo e gastador do dinheiro alheio.
No país da demência política, talvez seja a mesma dos patriotas em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O que leva um cidadão com algum ou com muito poder acreditar que pode dominar uma nação ou o mundo à custa da força? Seria algum trauma do passado, algo como um amor não correspondido, a incerteza sobre seus ascendentes ou a dificuldade de assumir suas fraquezas de caráter e de personalidade? Também pode ser o acúmulo de dúvidas a respeito de sua própria existência.
Enfim, de repente é um pouquinho de cada coisa. E o que leva um cidadão que costuma posar de politizado achar que a grosseria, os gritos, o despotismo e a tirania são a solução para as mazelas sociais, políticas e econômicas de uma nação? Com todo respeito aos que, arrogantemente, se imaginam superiores, mas não há salvação fora da união do povo sabido e esperto com o que ainda está se aculturando politicamente.
Aproveitando o ano eleitoral, compilei os ensinamentos repassados pelos mais velhos e passei a ter a convicção de que, às vezes, os supostamente mais ingênuos, cândidos e aparentemente tolos sabem muito mais do que os ditos matreiros e sagazes. No Brasil da polarização, no qual impera a desconfiança, a descrença das pessoas com as pessoas e a suspeita de que todos estão contra todos, os simplórios naturalmente acabam se assumindo como os mais astutos politicamente.
São eles que, seguindo o sermão do Padre Antônio Vieira, afirmam que na união está o remédio e na desunião a ruína. Não se trata de defender e pedir votos para Lula da Silva ou de atacar a candidatura de Flávio Bolsonaro, mas sim de mostrar ao distinto público brasileiro que a desunião dos diferentes e dos pascácios é a condição básica para que os políticos espertalhões mantenham a festa na corte dos rufiões. Os súditos que obedecem e servem precisam saber que, enquanto eles convivem com as diferenças entre dias e noites, para os príncipes que governam e mandam sempre é dia.
Ainda bem que a vida sempre dá um jeitinho de nos mostrar como compreender uns aos outros. É essa compreensão que, um dia, nos levará a entender que um mundo justo não depende do que exigimos dos outros, mas sim do que oferecemos aos outros. Apostar no despotismo e no golpismo como saídas para os seculares problemas do Brasil é creditar as raízes da intolerância política à tal da desinteligência formal, conceito que, mesmo com muito esforço, nem Freud explica. Imagina nós, mortais com sabedoria suficiente para avaliar os políticos intolerantes como absolutamente desnecessários à sociedade. O dia 4 de outubro é a data ideal para expurgá-los. Pensemos nisso.
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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha máquina como troféu na estante da sala, e usa um Notebook para escrever temas pontuais para Notibras