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Reprogramando o Algoritmo

Mundo virtual vende com insistência uma carga inexpressiva

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Autor/Imagem:
João Zisman - Foto Editoria de Artes/IA

Que as redes sociais viraram um mercado persa, isso é fato. Não um desses mercados arrumadinhos, com placas de preço e fila organizada. Um mercado persa de verdade, daqueles em que você entra para comprar um sabonete e sai duas horas depois carregando um tapete que não cabe na sala, convencido de que era exatamente aquilo que faltava para sua felicidade. E, convenhamos, tem suas vantagens. A gente vê o produto, compara preços, lê avaliações, compra sem sair de casa e sem aquele vendedor pairando sobre o ombro perguntando pela quinta vez em três minutos se pode ajudar.

O problema nunca foi a feira. O problema são os vendedores da ilusão do sucesso que montaram barraca em cada esquina do feed. Todo mundo tem um segredo para oferecer: o segredo para viralizar, para ganhar seguidores, para aumentar o engajamento, para capturar a atenção nos três primeiros segundos. Há sempre alguém prometendo uma fórmula definitiva, como se existisse uma multidão escondida em algum lugar da internet esperando apenas que você descubra o truque certo para alcançá-la.

E o mais desconfortável é admitir que isso funciona porque desperta algo muito humano. Eu mesmo já perdi horas assistindo a vídeos que ensinavam a construir títulos irresistíveis, expressões faciais mais eficientes e frases capazes de impedir o dedo de continuar rolando a tela. No fim daquela maratona, percebi que não me lembrava de quase nada do conteúdo consumido. Lembrava apenas da promessa de que a grande revelação viria no próximo vídeo.

A essa altura da vida, já entendi que dominar a linguagem digital não é luxo nem modismo. É necessidade. As plataformas passaram anos estudando nossos hábitos com um grau de atenção que muitos casamentos jamais conheceram. Sabem onde paramos, onde desistimos, o que desperta curiosidade e o que provoca indignação. E descobriram algo que talvez nós mesmos demoramos a aceitar: profundidade raramente provoca reação imediata. O que movimenta a engrenagem costuma ser o glamour, a tragédia, a ostentação, o humor agressivo e, principalmente, a raiva. Poucas coisas prendem mais atenção do que a vontade de corrigir um desconhecido que acabou de dizer uma enorme bobagem.

Foi nesse ambiente que apareci eu, jornalista ainda convencido de que fato e contexto servem para alguma coisa. Resolvi falar de política sem torcida organizada, de geopolítica sem transformar o mapa-múndi numa luta livre e de cotidiano sem abrir mão da contextualização. Levei para as redes aquilo que aprendi a valorizar na profissão. O resultado foi uma audiência que cabe num fusca. E digo isso com respeito ao fusca, um dos poucos automóveis honestos da história. Nunca prometeu ser Ferrari, nem vendeu a ilusão de que mudaria a vida de alguém. Apenas levava as pessoas aonde precisavam chegar.

Confesso que há dias em que bate o desânimo. Explicar uma crise internacional para uma plateia do tamanho de uma roda de amigos no bar exige certa teimosia. Às vezes penso que talvez fosse mais eficiente colocar um cachorro de óculos escuros comentando a cotação do dólar ao som de uma música animada. Dependendo do carisma do animal, ele alcançaria mais gente do que eu e acabaria convidado para ensinar os segredos do sucesso digital em algum curso on-line.

Com o tempo, porém, comecei a desconfiar de que o problema talvez não estivesse apenas no algoritmo. Passei anos acreditando que havia duas alternativas: aderir completamente às regras do jogo ou preservar uma pureza quase monástica, escrevendo para meia dúzia de convertidos. Como se fosse preciso escolher entre relevância e consciência. Hoje acho que essa é uma falsa escolha.
Contar uma boa história nunca foi pecado. Humor não é inimigo da inteligência. Leveza não significa superficialidade. Talvez o desafio seja aprender a convidar as pessoas para a conversa antes de despejar sobre elas tudo aquilo que julgamos importante. Ninguém presta atenção por obrigação moral. As pessoas escutam quando se sentem tocadas, curiosas ou entretidas. Sempre foi assim, muito antes de existir algoritmo.

Continuo sem saber se vou convencer as plataformas de que contexto também merece audiência. Desconfio, inclusive, que não exista fórmula para isso. Mas, depois de assistir a tantos vendedores prometendo atalhos, comecei a suspeitar que o único segredo realmente valioso seja também o menos vendável de todos: ter alguma coisa que valha a pena dizer e aprender a dizê-la de um jeito que desperte nas pessoas a vontade de permanecer até o fim da conversa.

Pensando bem, talvez o velho fusca continue sendo a melhor metáfora. Ele nunca foi o carro mais rápido da rua. Só tinha o hábito de chegar.

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