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Cultura

‘Nada Ficou no Lugar’ mostra a Adriana da nova cena

Foto: Leo Aversa/Divulgação
Júlio Maria

Quanto tempo uma canção leva para se tornar standard? Quantas delas sobrevivem? A quantidade de vozes que passa por suas melodias seria um indício? E sobre as vozes, o que difere uma versão, recriada muitas vezes com mais força do que a original, de um cover, que tem méritos só quando se aproxima da matriz? Como uma geração que veio depois, com novas relações com o consumo e a criação musical, pode atravessar o que estava estabelecido vinte anos antes?

Um álbum com 18 músicas de Adriana Calcanhotto, sob a voz e o pensamento instrumental deste contingente mais fresco, vem sendo construído a base de três EPs desde o final de 2018. Nada Ficou no Lugar, agora com tudo reunido, além de compilar uma boa mostra da cena que vai de Baco Exu do Blues a Jaloo, de Johnny Hooker a Mahmundi, traz também, em muitas faixas, produtores musicais que fizeram grandes trabalhos. A criação e a curadoria é da dupla Andrea Franco e Zé Pedro e o lançamento é feito em conjunto pela Xirê e a Sony Music.

Adriana tem uma frase curiosa no texto de divulgação do álbum. “Eu fiquei muito satisfeita em saber que o desrespeito é total”. Um desrespeito, ela quer dizer, que tem a ver com pudores. Não há compromissos com nada do que está no original, como se a ordem fosse mesmo tirar tudo do lugar. Zé Pedro também coloca no mesmo texto o seguinte: “A gente escolheu artistas de muita personalidade, o que deu um resultado bem interessante para o projeto. Cada um teve total liberdade para acrescentar mais acordes, e até modificar a melodia e reconstruir a canção com sua assinatura”.

Ele toca em um ponto delicado que não parece ter unanimidade na música popular brasileira. Mudar a melodia de uma canção de Toninho Horta, Milton Nascimento ou Tom Jobim é, para muitos artistas, como chutar um tótem. “Não fazemos isso. Ao menos é preciso tocar a melodia certa na primeira vez. Depois pode até entrar com a liberdade poética”, disse Horta, em recente entrevista ao Estado.

Zé Pedro, nas frases do texto, diz que trata-se de uma postura que tem a ver com a própria Adriana. “Adriana sempre despejou uma carga autoral muito forte, mesmo quando gravou outros compositores.” Sua parceira, Andrea Franco, reforça que o nome do álbum vem dessa liberdade prévia. “O nome Nada Ficou no Lugar surgiu exatamente do fato de os intérpretes se apropriarem das canções e darem uma roupagem a seu modo e para seu público, de acordo com sua identidade musical.”

O efeito versão é curioso. Canções, mesmo para as quais poucos olhavam, parecem ganhar outra dimensão, um certo status de clássico. Claro, isso quando a versão é vitoriosa. Quando não é, a pergunta que se faz é “por quê?” Por que mexer se não tiver assunto? O álbum livre sobre Adriana é vencedor porque acrescenta cores novas a uma obra que já nasce aberta, traz novas sensações, arrisca e recria.

Mentiras, com Johnny Hooker, tem esse poder. Há um arranjo matador na produção de Joana Cid e Nana Rizinni, mas Hooker ainda tem um lugar lá no finzinho de suas frases em que cai no excesso, um elástico que ele puxa demais, às vezes rendendo um vibrato forçado, quase gritado, que um mínimo de parcimônia o deixaria poderoso e muito mais verdadeiro.

Priscila Tossan faz o contrário com a voz que achou pra si. Vambora ficou com um suingue e uma suavidade que deixa bem à vista as sibiladas que ela pode ter escutado no Jorge Ben dos anos 60. Mesmo sem vencer o programa, Tossan passou pelo The Voice, da Globo, e saiu como uma espécie de ganhadora de honra. Ela só precisa agora se descolar da sombra incômoda da mãe e de toda a superficialidade com a qual aquele programa unge seus participantes e achar seu rumo. Pode ser o começo.

Cariocas vêm na voz de Mahmundi. Ela ganha uma malandragem maior, mesmo muito em cima da versão original. Esquadros é uma pedreira, difícil defender a música que já veio definitiva, mas Jaloo encara e se sai bem. Sua sintonia passa pelas frequências de Adriana com naturalidade, dois fios de voz que se fazem mais nas fragilidades do que nas empostações. Na outra ponta, Preta Gil vem sobre os graves de Pode de Remoer. Ava Rocha canta bonito em Âmbar; e Baco Exu do Blues refaz uma das revisitações mais originais com Senhas. Não é fácil pensar em uma versão rap para algo que saia da delicadeza de Adriana, mas Baco faz perceber o quão forte é a indignação na lista dos “não gosto” desta música. A original já tinha uma interpretação desgostosa, mas ainda com doçura. Baco traz a revolta.

Alice Caymmi é uma das melhores vozes de sua geração, e também consegue desvirtuar Metade, com a produção de Diogo Strauss. Larissa Luz aparece em Vai Saber?, ATTOOXXÁ fica com Toda Sexta Feira, Mãeana tem O Amor me Escolheu e Taís Alvarenga faz, com a voz largada como sabe, Inverno.

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