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Brasília

Natal, irreverente, foi morar com São Pedro

Eduardo Monteiro

Brasília e o Brasil acabam de perder uma daquelas pessoas que só o tempo poderá lhe trazer os louros merecidos. O paraibano de Ingá do Bacamarte, José Natanael Rodrigues de Moraes, o popular Natal, foi reconhecidamente o que se pode chamar de artista plural. Com formação em desenho clássico, Natal transitava com desenvoltura e naturalidade desde a charge e a caricatura à mão livre, até complexos desenhos industriais, passando por técnicas como o bico de pena, aquarela e óleo sobre tela, com o mesmo indefectível talento.

Em seus 80 anos bem-vividos, dos quais 26 dedicados à Infraero, empresa administradora dos principais aeroportos brasileiros que viveu seus dias de glória até o final da década de 1990, Natal deixou sua marca. Nesse período ele desenvolveu inúmeros projetos na área de Comunicação Visual, Marketing Aeroportuário e Comunicação Social, sendo inclusive o responsável pelo desenvolvimento da logomarca original da empresa.

Intelectual polivalente, era capaz de emocionar uma plateia tanto dissertando sobre a obra de Machado de Assis ou Camões, como falando sobre as criações de Assis Valente, Vinicius de Morais ou ainda contando causos dos humoristas Geraldinho ou Mução.

Formação na Cidade Maravilhosa
O jeito nordestino ganhou tonalidades de carioca, resultado de seu estágio no Rio de Janeiro, em meados da década de 1950, quando morou na lendária Ilha de Paquetá e serviu, como militar da Força Aérea Brasileira, na Base Aérea do Galeão, e depois no antigo Ministério da Aeronáutica, localizado no Centro do Rio de Janeiro, então capital do país.

Nessa época, em suas andanças conheceu e chegou a frequentar a escola de Samba Mangueira, ocasião em que viu de perto nomes como Nelson Cavaquinho, mestre Delegado, Cartola e Jamelão, este seu companheiro eventual na barca que fazia a travessia do Rio até Paquetá, cantando a plenos pulmões sambas antigos da Verde e Rosa.

A Lapa, Cinelândia e Feira de São Cristóvão eram igualmente paradas obrigatórias em seus roteiros pelo Rio Antigo. O espírito de gozador inveterado, contrastava com a polidez de seu texto irrepreensível. Natal foi durante anos o editor do periódico Infra Informe, além de escrever artigos, editar jornais e revistas e ilustrar livros, como o consagrado Romance da Besta Fubana, de seu amigo pernambucano Luiz Berto. Ele também teve participação ativa nos três volumes do livro Memórias da Infraero, de autoria de Ottacillius Amazonas.

De gosto artístico bastante eclético, Natal lia e relia da Odisseia de Homero a Grande Sertão Veredas; ouvia de Rachmaninoff a Jackson do Pandeiro; e assistia e revia de Casa Blanca às comédias do Mazzaropi. Para completar sua polivalência, na gastronomia também não hesitava em saborear com o mesmo afinco, tanto uma suculenta rabada, como uma tradicional macarronada com frango.

Além dos livros, discos, pincéis e lápis, outro instrumento inseparável era o taco de Sinuca, seu esporte preferido – odiava quando se referiam à Sinuca como passatempo. Quando ia a São Paulo, não deixava de dar uma passada pelo salão do mais famoso jogador brasileiro do esporte, Rui Chapéu, que em 1986 e em 1987, venceu o inglês Steve Davis, então campeão mundial de sinuca.

O mestre Natal, cujo corpo foi cremado nesta sexta, 30, em Valparaíso de Goiás, deixará muitas saudades, tanto por sua irreverência e senso de humor, como pela sua incontestável bondade em repartir de graça o seu grande conhecimento em diversas áreas.

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