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Resenha literária

No Meio do Caminho, de Eugênio Giovenardi

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Barros - Foto Divulgação

Quando soube que o escritor Eugênio Giovenardi lançaria uma biografia, fiquei tomado por grande expectativa. Preparei-me para a leitura sem demora, desejoso de me deleitar com mais uma obra desse autor que, dono de uma inteligência privilegiada, sabe como poucos transpor para a escrita sua notável capacidade de observação.

Após percorrer o sertão nordestino com a comovente saga de Heliodara (2010) e desfrutar do sensível convívio de As Árvores Falam (2012), esperava encontrar em No Meio do Caminho (Editora Movimento, 2014) a estrutura tradicional de uma biografia: a infância, as brincadeiras, o ambiente familiar, as inquietações da adolescência. Enfim, a narrativa linear de uma vida. Contudo, para minha grata surpresa, encontrei muito mais nas 176 páginas deste instigante volume.

O que se revela é uma relação profunda e íntima do autor — também de Silêncio (2011) — com os dogmas e a cultura da Igreja Católica, elementos que lhe foram incutidos desde o nascimento. Descendente de família italiana — como sugere o sobrenome Giovanardi, posteriormente aportuguesado para Giovenardi —, herdeiro, portanto, de uma tradição diretamente ligada ao berço do catolicismo, o autor teve sua formação fortemente marcada por essa influência.

Com a maestria que lhe é própria, Eugênio constrói um paralelo constante entre sua vida e a Igreja — e entre a Igreja e a vida. Nesse percurso, depara-se com imprecisões que jamais lhe são esclarecidas, apenas impostas como dogmas inquestionáveis, sob pena de pecado. A sensação de vigilância constante — de que tudo é visto e ouvido — reforça o peso dessas estruturas.

A luta interna para libertar-se dessas amarras revela-se dolorosa, quase física. A dor que transpassa o autor atinge também o leitor. Trata-se de uma leitura visceral — sobretudo para aqueles que, como eu, possuem formação católica. São conflitos que muitos não ousam enfrentar, mas que Eugênio encara com coragem rara. E, já próximo dos oitenta anos, decide expô-los com sinceridade desarmante.

Diferentemente dos que se contentam com ritos e celebrações, Eugênio questiona:

“Por que preciso de um Deus em minha vida?”

E, reconhecendo que “a consciência é um árbitro implacável”, oferece ao leitor reflexões que apontam para uma pacificação interior construída a duras penas.

Tão profunda foi sua relação com a religião que, mesmo após décadas, suas marcas parecem não ter se dissipado por completo. Ou seria o olhar do leitor — o meu próprio — ainda impregnado de convicções? O próprio autor, no entanto, oferece uma chave para esse impasse:

“Penso que sejam as dúvidas que me fazem viver e sobreviver.”

A cada questionamento, estabelece-se também uma batalha interna no leitor, convocado a confrontar suas próprias certezas.

Em meio a essas tensões, emerge o prazer da libertação: o direito de questionar sem medo — como fez Anísio Teixeira. A narrativa ganha então contornos de leveza e expansão, como um voo inesperado sobre uma multidão em Paris.

E surge Paris, 1968. As ruas, as barricadas, os protestos. De repente, o silêncio:

“Agora éramos os únicos habitantes da cidade.”

É nesse cenário que aparece a jornalista finlandesa Hilkka Mäki, iniciando uma relação duradoura e significativa — mais um rompimento com paradigmas impostos, inclusive aqueles que historicamente pesaram sobre a figura feminina.

Outro aspecto marcante da obra é o diálogo com grandes pensadores. Eugênio evoca nomes como Carl Sagan (“É permitido não ter certeza”), Agostinho de Hipona, T. S. Eliot (“A cultura de um povo é a encarnação de sua religião”), Fiódor Dostoiévski (“Se Deus não existe, tudo é possível”) e Derek Walcott. Essas referências revelam que muitos já enfrentaram essas questões — mas Eugênio, ainda assim, consegue renovar o debate com profundidade e originalidade.

Sem dúvida, No Meio do Caminho é uma obra polêmica, intrigante e profundamente reflexiva. Revela um autor maduro, que alcançou elevado grau de consciência, experiência e domínio técnico. Sua escrita foge ao modelo convencional das biografias, enriquecendo a obra ao abrir um espaço íntimo, quase secreto — ainda que universal em sua essência.

A leitura é comparável a percorrer uma floresta conhecida e, de repente, abandonar a trilha segura para adentrar a mata fechada: enxergamos então não apenas o caminho, mas a complexidade da vida em sua totalidade — do microscópico ao grandioso.

Uma experiência literária intensa, destinada àqueles que não temem se perder entre certezas e dúvidas.

Como todo grande livro, é impossível chegar ao fim sem sair transformado pelo mundo que nos foi apresentado por Eugênio Giovenardi.

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Link para comprar o livro: https://www.amazon.com.br/No-Meio-Caminho-Eug%C3%AAnio-Giovenardi/dp/8571952280

Daniel Barros é romancista, contista e artista plástico.

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