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Lubrificante e maionese

Noite de orgia no QG marcou invasão da Praça dos 3 Poderes

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Foto/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto/Reprodução Inspirada nas obras do Marquês de Sade

Desde muito jovem, tenho por princípio não ter medo. Foi na juventude que aprendi com os mais velhos que o medo adora roubar sonhos. Na minha vida, os sonhos nunca couberam em gavetas. Por isso, normalmente escolho meus sonhos e faço deles a razão dos meus dias. Ou das minhas noites. Dependo sempre da imaginação. Aliás, por conta do ócio (mal) remunerado, a inventividade é o que me faz ser feliz e, às vezes, fazer feliz quem me dá a honra de participar dos meus escritos. Baseado na máxima de que momentos bons e ruins fazem parte da vida, percebi em uma única e hipotética noite que a diferença entre eles é que um marca e o outro ensina. A linha tênue que separa ambos chama-se imaginação, o que, repito, ainda tenho de sobra.

Dia desses, quase noite, resolvi sair por aí. Passando em frente ao ex-acampamento dos integrantes da seita conhecida por “patriotas sem pátria”, perguntaram-me se eu procurava por ação. Respondi que em outros tempos até poderia ser, mas que na oportunidade procurava apenas por mim. Sentei e, com a clareza de um dia de sol carioca, imaginei uma noite acampado junto dos companheiros de pesadelo. Vi de tudo, menos patriotismo ou brasilidade. Em verdade, só sabia que estava em terras brasileiras pela profusão da sarnenta e cornucópica música sertaneja. De vez em quando, surgia alguém com teses mais anarquistas e metia no som um funk abestado e devasso, daqueles próprios para relacionamentos fugazes entre a barata e o barato.

Nada demais para um ambiente criado por fariseus para folguedos, golpismos e fornicação daqui pra lá e, principalmente, de lá pra cá. Sem margem alguma de erro, fornicação era a palavra de ordem na selva bolsonarista. Como nas melhores orgias golpistas, a intenção era fornicar do Brasil a quem estivesse de frente, de costas ou de lado. O decúbito dorsal era um facilitador. Entre as farisaicas e hipócritas normas, eram comuns os pedidos de refeições de restaurantes da moda. Marmitas deliverys também chegavam aos borbotões. Normais naquele outro acampamento, o pão com mortadela era uma indecência, algo somente servido para os agentes de segurança que eventualmente passavam por ali para desejar à turma do ódio uma noite de sono profundo, sonhos impudicos, muitos prazeres e, se desse, de escrivinhar minutas golpistas.

Enquanto pensava o que seria da madrugada, adaptei para os dias de hoje uma antiga frase de Walt Disney. Longe do original, escrevi entre o primeiro e o segundo neurônio, que, mesmo sem libidinagem explícita, o gozo é atemporal, a imaginação não tem idade e os sonhos são para sempre. Foi aí que libertei meu diabinho para circular no breu do tenebroso acampamento. Logo de cara, ouvi alguém pedir, aos gritos, por uma mãozada de lubrificante. De imediato, imaginei um cidadão (ou cidadã) sofrendo de dores nas partes pudendas, as consideradas ocas e normalmente as que mais sofrem quando o coração se perde de amores. No gritante silêncio notúrnico das coberturas de lona, a resposta de que só havia maionese e ketchup foi rápida.

Ufa! Relaxei, porque tive certeza de que não havia entre os acampados dores físicas decorrentes da ofegante e obscena movimentação do baixo ventre. A oferta dos dois componentes fastfoodianos, indicou que, melhor do que o sussurrante bota e tira do amor horizontal, tratava-se apenas da comilança de um suculento e afrodisíaco cachorro quente, quase pelando. Eita mente emporcalhada e pornográfica a minha! O pior dos mundos ainda estava por vir. De repente, começaram a surgir as variantes religiosas. Do meu cercadinho anuviado, ouvia as orações nervosas dos evangélicos, os atabaques dos umbandistas e a pregação dos católicos progressistas. Todos gritando em nome de Deus, do dízimo e do conservadorismo megalomaníaco, louco e odioso. Tive vontade de aparecer no meio das lonas e gritar que não dispunha de lubrificantes, maioneses ou ketchups.

Não gritei, mas pensei informar que tinha um estoque das acalentadoras e suculentas revistinhas do Carlos Zéfiro e várias edições da coluna Fórum, publicada pela falecida revista Ele&Ela, cujo autor era Léo Borges Ramos, um velho conhecido das redações do Rio de Janeiro. Preferi ficar calado. A última cena de minha fictícia noite com a patriotada foi vislumbrar um banho grupal e de cuia no alambrado montado no fim do acampamento. Imaginei o sabonete caindo no chão, alguém apanhando com os baixos meretrícios à mostra e outro alguém berrando: É créu! Corri para os banheiros químicos, os quais, por causa da grande movimentação, permitiam até três xixis simultâneos. Na escuridão, senti o toque e perguntei ao vizinho da mijação qual era a dele. Seco, ele respondeu que estava fazendo o mesmo que eu, isto é, mijando. De forma carinhosa e com a simplicidade dos cagões, me limitei a dizer ao companheiro que estava tudo certo. Antes, porém, sussurrei no ouvido do mancebo, cujo rosto não vi: Por favor, urine com o seu e largue o meu.

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