Forma sofisticada de absolvição
Nós chamamos de louco o homem que assedia, agride ou violenta mulheres
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E fazemos isso como se fosse um gesto de condenação, quando na verdade é uma forma sofisticada de absolvição.
Ao chamar o crime de loucura, nós retiramos dele aquilo que mais o define: a escolha. A intenção. A estrutura. Transformamos violência em desvio individual, quando ela é, historicamente, um comportamento socialmente produzido, tolerado e, muitas vezes, protegido.
Michel Foucault já nos ensinou que a loucura nunca foi apenas uma condição médica, mas uma categoria política. Nomear alguém como louco sempre serviu para afastá-lo do campo da responsabilidade moral e jurídica. O louco não responde plenamente por seus atos. O louco não representa a norma. O louco é exceção. E é exatamente isso que interessa quando falamos de violência contra mulheres.
Nós chamamos de loucura porque nos recusamos a admitir que o assédio é banal. Que ele é cotidiano. Que ele atravessa homens comuns, pais de família, colegas de trabalho, líderes respeitados. Preferimos acreditar que se trata de uma falha individual do que reconhecer que é o resultado lógico de uma cultura que ensina homens a confundir poder com direito.
Quando dizemos “ele é louco”, estamos dizendo, ainda que sem perceber: não somos nós.
Não é o sistema.
Não é a educação que damos.
Não é a masculinidade que celebramos.
Hannah Arendt falou da banalidade do mal ao analisar como atrocidades podem ser cometidas por pessoas perfeitamente integradas à normalidade social. Nós vemos isso todos os dias. O assediador não precisa gritar, espumar ou parecer fora de si. Muitas vezes ele age com calma, estratégia e plena consciência de que dificilmente será responsabilizado.
Chamar crime de loucura também é uma forma de desumanizar a própria loucura. Nós associamos a ela tudo o que é violento, cruel e desprezível, quando, na realidade, a maioria das pessoas em sofrimento psíquico são vítimas, não algozes. Ao fazer isso, reforçamos estigmas e protegemos culpados.
O assédio não é delírio.
Não é surto.
Não é perda de controle.
É exercício de poder.
E enquanto nós insistirmos em tratar violência como desvio psicológico, continuaremos incapazes de enfrentá-la como aquilo que ela é: um problema político, cultural e estrutural. Um crime sustentado por silêncios, piadas, descrédito das vítimas e pela confortável ideia de que “homens normais não fazem isso”.
Nós fazemos isso porque admitir a verdade exigiria mudança.
E mudar é sempre mais difícil do que patologizar.
Enquanto chamarmos crime de loucura, seguiremos protegendo agressores e culpabilizando vítimas.
E isso, definitivamente, não é falta de sanidade.
É escolha social.