Curta nossa página
Dutch   English   French   German   Italian   Portuguese   Russian   Spanish


E a faixa presidencial?

Números eleitorais mostram que mitos não são inquebráveis

Publicado

Foto/Imagem:
Mathuzalém Junior* - Foto Marcelo Camargo

Em situação análoga a de um parasita, o governo federal caducou desde a posse de seu principal representante. Como líder de coisa alguma, Jair Bolsonaro nem golpista tem conseguido ser. Falta-lhe apoio popular, das forças políticas e, principalmente, da caserna superior. Até hoje, além de colher parte do ódio que semeou, o máximo que conquistou foi criar um batalhão de meia dúzia de anarquistas que, em nome de um fanatismo barato, não sai do lugar. É um administrador de varejo, um ilustre preposto de um populismo que vive de arrumar inimigos para justificar seu fiasco.

Sempre na contramão dos fatos, os bolsonaristas adoram ser contrários a tudo que é estabelecido por leis, normas e costumes. E não importa que eles sejam cidadãos comuns ou autoridades travestidas de parlamentares, militares, policiais ou ministros de Estado. Como se acham acima do bem e do mal, a autoavaliação é de que podem tudo, inclusive o que não podem. Acreditam na força das baionetas e dos canhões como forma de subjugar o povo. Também se imaginam superiores à massa e têm certeza de que ganharão o poder no grito ou com o apoio violento de duas dúzias de PMs amotinados e mais quatro ou cinco dezenas de fanáticos adoecidos como o guru espiritual.

Curioso é a idolatria a quem vive para tensionar, não lidera, não governa e emite diariamente sinais absolutamente equivocados, o que, em qualquer família ou governo do mundo, representaria menos confiança no líder. O Brasil de hoje é um balaio de gatos, comandado por alguns ratos que não morrem. Sem governo por conta da campanha eleitoral a que o presidente da República se embrenhou desde sua posse, é o país desenhado há décadas por Carlito Maia, um dos publicitários mais criativos que já conheci. “Brasil? Fraude explica”.

Ele morreu antes do tempo, mas com a certeza de que sua máxima, além de correta, seria confirmada bem antes que fosse mostrado à parcela do eleitorado que a Coca-Cola que “compraram” na verdade era Pepsi. Uma das melhores e mais atuais frases de Carlito – talvez a mais profética – assegura que “Mineiro não fica louco…Piora”. Basta que se troque o gentílico por uma patente e tudo fica claro como um céu de brigadeiro. No Brasil do faz de conta, nada acontece há muito tempo. E nada acontecerá pelo menos até que a brincadeira administrativa tenha cessado ou que a loucura mitológica seja contida com votos.

Pensamentos e tiradas engraçadas à parte, a realidade brasileira é de caos quase absoluto. Vez por outra sou acusado de só escrever sobre o lado negativo do governo Bolsonaro. É verdade. Aproveito a oportunidade para me penitenciar. Por isso, antes de falar a respeito dos péssimos índices de aprovação do governante, tenho de me render aos elevados índices de rejeição ao presidente. Talvez esses sejam mais eloquentes, pois alcançam a alma. Quais seriam os mais incômodos? De concreto, os números não se cansam de mostrar que os mitos, principalmente os de barro, não são inquebráveis. Aliás, quando se quebram viram cacos e acabam virando pó.

De acordo com os últimos levantamentos, a vantagem de Luiz Inácio sobre Jair Messias cresceu tanto nas simulações de primeiro turno como nas de segundo turno. Os números não são definitivos, mas indicam claramente que algo novo virá. O castelo de areia faz anos desmorona. Caso as pesquisas amplamente favoráveis à mudança de extremo se confirmem em outubro, antecipo uma pergunta que todos já se fazem: Bolsonaro passará a faixa presidencial a Luiz Inácio? Lembrando o gesto que não houve do último general presidente, eu mesmo respondo: certamente a grandeza democrática que faltou lá, faltará cá. Os cães ladram e a caravana passa. Felizmente.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

Publicidade
Publicidade