O Lado B da Literatura
O árcade que trocou a toga pela mina e a pena pela conspiração
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O Lado B da Literatura de hoje traz Inácio José de Alvarenga Peixoto, poeta, jurista e militar que fez da vida um soneto entre Coimbra e Ambaca. Nascido no Rio de Janeiro em 1744, morreu em 27 de agosto de 1792, no degredo em Angola, carregando o título de inconfidente e a fama de um dos nomes grandes do Arcadismo brasileiro.
Formou-se com os jesuítas no Rio antes de atravessar o Atlântico. Em 1760 entrou na Universidade de Coimbra e, em 1767, doutorou-se em Leis. Foi em Portugal que o nome ganhou mais uma peça: a partir de 1768 passou a assinar como Alvarenga Peixoto no meio literário.
Não editou livro em vida. Começou a publicar poesia em 1769, mas só em 1865 Joaquim Norberto reuniu seus versos em Obras Poéticas. Em 1964, Péricles Eugénio da Silva Ramos o incluiu na antologia Poesia de Ouro. Antes disso, em 1960, M. Rodrigues Lapa organizou Vida e Obra de Alvarenga Peixoto, a mais completa coleção de cartas e documentos do autor.
Em Lisboa conviveu com o círculo que moldou o Arcadismo luso-brasileiro: Basílio da Gama, Caldas Barbosa e o parente Tomás Antônio Gonzaga. Dividia-se entre autos judiciais e versos bucólicos, entre a toga de juiz em Sintra e as rodas de poesia.
Voltou ao Brasil em 1775. Assumiu o cargo de ouvidor da Comarca de Rio das Mortes, em São João del-Rei, e mergulhou na vida mineira. Trocou os tribunais pela terra: tornou-se agricultor, minerador e, em 1785, coronel do 1º Regimento de Cavalaria da Campanha do Rio Verde.
Em 1781 casou-se com Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, considerada uma das primeiras intelectuais e poetas do Brasil. A ela dedicou muitos versos. O romance entre os dois virou parte da mitologia da Inconfidência, unindo dois poetas no mesmo destino político.
Diferente de outros conjurados, Alvarenga Peixoto era homem de posses. Senhor de terras e minas, frequentava os poderosos da capitania. Foi amigo e compadre de João Rodrigues de Macedo, contratador de impostos em Vila Rica. Mesmo assim, acumulava dívidas com a Coroa. O aperto fiscal empurrou o coronel-poeta para a conspiração.
Em 1789, ao lado de Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, do padre Rolim e de Tiradentes, participou da Inconfidência Mineira. O movimento reagia aos pesados impostos e sonhava com uma república nas Minas. A ele se atribui a sugestão da frase em latim para a futura bandeira: Libertas Quae Sera Tamen, “Liberdade ainda que tardia”.
A delação de Joaquim Silvério dos Reis desmontou o plano. Alvarenga foi preso e levado para a Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Condenado à morte, teve a pena comutada para degredo perpétuo em Angola. A Sesmaria da Boa Vista, sua fazenda em São Gonçalo do Sapucaí, foi a leilão em 1795. Bárbara pediu ajuda a Macedo, que arrematou metade e virou sócio dela.
Embarcou para a África em 1792. Desembarcou em Ambaca e pouco tempo depois morreu, vítima de febre tropical que assolava a região. Tinha 48 anos. O poeta que circulara entre Sintra e Vila Rica terminou os dias longe da família, da mina e dos livros.
Como poeta, assinou também com os pseudônimos Alceu e Eureste Fenício. Integrou a chamada Arcádia Mineira e a “geração de 1770”, marcada pelo sentimento de revolta contra o domínio colonial. Sua obra, embora diminuta, é apontada como alguns dos sonetos mais bem acabados do Arcadismo no Brasil.
A temática pastoril divide espaço com a crítica social velada. Nos versos de amor aparece o famoso soneto “Estela e Nise”, sobre um coração dividido entre dois amores, tido como um dos mais belos do período. A dúvida amorosa convive com a inquietação política do homem que trocou a estabilidade da magistratura pela incerteza da revolta.
Teria escrito ainda Eneias no Lácio, drama lírico hoje desaparecido. O sumiço da obra reforça a imagem de um autor prolífico, mas sem fortuna editorial. Alvarenga Peixoto é o poeta sem livros publicados em vida, cujos originais sobreviveram graças a amigos, pesquisadores e arquivos.
Rodrigues Lapa, ao recolher sua produção, destacou a postura crítica quanto à sociedade da época. Sob a linguagem árcade, de pastores e ninfas, corria o desconforto com os tributos, com a metrópole, com a falta de liberdade. A poesia era também código.
No parlamento, em 10 de junho de 1851, suas palavras foram lembradas a propósito da abolição do tráfico negreiro. Ele havia dito: “sempre detestei a escravidão; a minha natureza como que se revolta à sombra de qualquer jugo”; “sempre me reputei abolicionista”. O registro revela um aspecto pouco conhecido do coronel mineiro.
A trajetória junta privilégio e pena. Foi juiz de fora no Reino, senador em São João del-Rei, ouvidor, coronel e senhor de lavras. Gastou quase toda a fortuna para abrir um canal de 30 quilômetros em São Gonçalo do Sapucaí, na tentativa de melhorar a lavagem das terras e alcançar melhores minas de ouro.
O canal não salvou suas finanças. A soma de dívidas, impostos atrasados e ideias iluministas o levou à conspiração. Compartilhava com os companheiros leituras francesas e a crença de que Minas podia governar a si mesma. A poesia arcádica virou prelúdio de um projeto de república.
Após a prisão, Bárbara Heliodora assumiu a gestão do que restou. Enfrentou o leilão da fazenda e criou os quatro filhos: Maria Ifigênia, José Eleutério, João Evangelista e Tristão. Ela morreu em 1819, sem rever o marido, mas com o nome gravado entre as primeiras vozes femininas da literatura nacional.
Alvarenga Peixoto morreu sem ver a liberdade que ajudou a inscrever na bandeira. Libertas Quae Sera Tamen virou lema de Minas Gerais e síntese de sua vida: tardia, sim, mas perseguida até o degredo. O poeta-jurista que rimou pastores e conspirou contra o fisco deixou poucos versos, uma frase imortal e o exemplo de como literatura e política se atravessam.
Entre Coimbra e Ambaca, entre Sintra e São João del-Rei, ficou o retrato de um árcade fora do gabinete. Inconfidente de elite, abolicionista declarado, marido de poeta, pai, minerador endividado e autor sem livro. A obra cabe em volume pequeno. A história, não.
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Cassiano Condé, 82, gaúcho, deixou de teclar reportagens nas redações por onde passou. Agora finca os pés nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai pérolas que se transformam em crônicas.