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Candinha

O caderninho de dona Lidiane

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Francisco Filipino

A história é nova, mas a gíria é das antigas. Aconteceu logo após o último carnaval, quando o resquício da euforia ainda percorria veias e artérias dos foliões, especialmente daqueles mais animados. E Luciano, certamente, parecia um dos mais eufóricos, conforme constava, minuciosamente anotado, no diário da dona Lidiane, verdadeira Candinha, que não passava pano nem mesmo nos deslizes dos mais próximos.

Para não perder a dignidade, Luciano tentou, a moderado custo, manter sob a penumbra os acontecidos nos salões da vida. Não à toa, tratou de ficar de bico calado, mesmo sabedor de que nem tudo que acontece nesses antros fica por lá. Afinal, sempre há um incauto linguarudo, provavelmente com resquício de inveja. Quem sabe, até um rival?

Dona Lidiane, que não se considera fofoqueira, mas está com os ouvidos em dia, capta com maestria qualquer causo que, porventura, possa ser repassado de modo generoso. Como a velha gosta de dizer, quem quer segredo que guarde para si. Desse modo, já que não era dona daquilo que havia chegado inocentemente ao seu conhecimento, nada mais justo do que repassá-lo sem culpa ou possíveis remorsos.

— Não tem o Luciano?

— Que Luciano, dona Lidiane?

— Hum! Como se você não soubesse, mulher!

— E eu lá sei?

— O marido da Fátima.

— A Fátima da quitanda?

— E tem outra por acaso, Lucrécia?

— Sei lá!

— Ah, me poupe, né?

Lucrécia e dona Lidiane poderiam prosseguir nessa ladainha durante toda manhã, caso não fosse segunda-feira, dia de labuta para boa parte dos moradores do bairro.

— Pois diga logo, dona Lidiane, que tô atrasada pro serviço.

— Então, depois eu conto, mulher.

— Conte logo, que me deixou morta de curiosidade.

Dona Lidiane observou a colega e, com um sorriso de satisfação, desandou a contar os acontecimentos nos bailes de carnaval. Para finalizar, fez aquela cara de indignação, como se toda a santidade do mundo estivesse ao redor do seu ser.

— Uma pouca vergonha!

— É verdade, dona Lidiane. Pobre da Fátima, não merecia um traste daqueles como marido.

— Hum! Aqueles dois se merecem! Eita, casalzinho que não vale uma Cibalena!

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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