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Marina Dutra

O corpo fala o que a gente cala

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Autor/Imagem:
Marina Dutra - Texto e Foto

Nem sempre o que dói começa no corpo. Muitas vezes, começa em um silêncio. Em uma emoção que não foi sentida até o fim, em uma palavra que não foi dita, em uma dor que foi ignorada para que a vida pudesse continuar e o problema é que aquilo que não é elaborado não desaparece, fica.

Ao contrário do que muita gente imagina, os sintomas físicos nem sempre surgem de forma repentina. Eles costumam ser o resultado de um processo que acontece ao longo do tempo. Um acúmulo.

Primeiro, a experiência emocional. Depois, o pensamento que se repete.

Em seguida, o cansaço, a falta de energia, o peso que não se explica. E, por fim, o corpo manifesta.

Antes da dor física, quase sempre houve sinais mais sutis: uma ansiedade constante, uma irritação frequente, uma tristeza sem motivo aparente, dificuldade para dormir, sensação de sobrecarga…

O corpo tenta avisar. Mas, na rotina acelerada, esses sinais são ignorados, minimizados ou tratados como algo “normal”. Até que deixam de ser silenciosos.

O que muitas vezes não é compreendido é que o corpo não adoece de forma isolada. Ele responde ao que está sendo vivido internamente. Emoções não acolhidas, tensões constantes e estados prolongados de estresse impactam diretamente o funcionamento do organismo.

Estudos na área da saúde já demonstram que o estresse crônico, por exemplo, pode alterar o sistema imunológico, aumentar processos inflamatórios e afetar o equilíbrio do corpo como um todo. Ansiedade e medo constantes também influenciam o funcionamento hormonal e a resposta do organismo diante de diferentes situações.

Isso não significa que toda doença tem origem exclusivamente emocional. Fatores genéticos, ambientais, infecciosos e de estilo de vida têm papel importante. Mas o emocional influencia, e muito, a forma como o corpo reage a tudo isso.

Na prática, isso pode ser observado em situações do dia a dia. Uma pessoa que vive sob pressão constante, sem espaço para descanso ou expressão emocional, pode desenvolver sintomas como dores recorrentes, fadiga ou alterações no sono.

Alguém que guarda mágoas por muito tempo pode perceber tensão corporal, desconfortos digestivos ou sensação de peso constante.

Quem vive em estado de alerta, tentando controlar tudo ao redor, pode apresentar ansiedade elevada, exaustão e dificuldade de relaxar.

O corpo não fala em palavras. Ele fala em sinais. E, muitas vezes, ele intensifica esses sinais quando não é escutado.

É como se houvesse uma escala.

No início, o incômodo é leve. Depois, vira desconforto. Mais adiante, dor.

E, em alguns casos, doença.

Não como punição, mas como um pedido de atenção.

Por trás de muitos sintomas, existem histórias que não foram totalmente processadas. Experiências antigas, emoções reprimidas, padrões que se repetem ao longo da vida.

E, para lidar com essas experiências, as pessoas desenvolvem formas de proteção. Algumas aprendem a se calar, outras a se manter sempre fortes, há quem viva para cuidar dos outros e esqueça de si, quem evite conflitos a qualquer custo, quem se cobre excessivamente.

Essas estratégias ajudam em algum momento. Mas, com o tempo, podem gerar sobrecarga emocional e essa sobrecarga, quando contínua, encontra uma forma de se expressar e o corpo entra como esse canal.

Por isso, tratar apenas o sintoma nem sempre é suficiente. É importante cuidar do corpo, buscar acompanhamento médico, realizar exames e seguir orientações de saúde. Mas também é necessário ampliar o olhar.

Perguntar-se: o que estou sentindo que não estou conseguindo expressar? O que tenho acumulado? Que padrão se repete na minha vida?

Essas perguntas não substituem o cuidado físico, mas complementam.

Existe um caminho possível, que não começa no corpo, mas passa por ele. Um caminho inverso: do sintoma para a origem.

Um processo de escuta, compreensão e ressignificação.

A terapia oferece esse espaço, um lugar seguro para acessar essas camadas mais profundas, entender o que está por trás dos sintomas, reconhecer padrões e construir novas formas de lidar com as emoções.

Porque, muitas vezes, quando aquilo que estava sendo calado encontra espaço para ser visto e elaborado, o corpo já não precisa mais falar tão alto.

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Acompanhe “Café com Consciência”, às segundas-feiras, às 7h30, no Instagram @sersuperconsciente.

Marina Dutra
Terapeuta Integrativa
sersuperconsciente@gmail.com

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