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Crianças

O escorpião que mordeu com o rabo

Publicado

Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

De repouso, eu me recupero. Minha mãe entra, senta-se no sofá ao lado e pergunta:

— Que horas são?

— Dezessete e dois.

— Às dezessete e vinte e cinco me avise, tenho que ir à loja buscar o celular.

O aparelho, que dera defeito na tela dois dias antes, apresentara agora um problema na bateria após o conserto. Atualmente, dependemos tanto do celular que o técnico prometera corrigir o erro antes de fechar a loja. Dois exatos minutos se passam; minha mãe, falando de uma coisa e outra, comenta algo novamente sobre o aparelho.

— É o quê, mãe?

— O celular, eu não disse que vou buscar?

— Ah, é! Estou doida… às vezes me dão umas loucuras, igual à história do escorpião.

— Que escorpião? Ah! O que mordeu o Maicke?

Começo a rir. Seguro a barriga, tento me controlar, mas dói… os pontos não permitem grandes gargalhadas. Por alguma razão, meu cérebro resolveu abrir uma de suas caixinhas de dezesseis anos atrás. Diga-me você, meu amado leitor: existe lógica nessas conexões que a mente faz? Se existe, ela se esconde de mim. Mas vamos à história.

Meus filhos tinham nove, sete e o menor completaria cinco anos. Meu caçula era um menino tranquilo; tinha todas aquelas travessuras infantis, mas nada preocupante. Não era de colocar objetos na boca nem de mexer com bichos. Eu era aquela mãe exausta: trabalho, casa, filhos, marido, igreja; uma rotina comum à maioria das mulheres.

Chegamos em casa por volta das vinte e duas horas. Mal entramos e fui direto para a cozinha; algo havia acontecido e uma fila de formigas-estaladeiras atravessava o cômodo. Pedi às duas maiores que ficassem à distância, coloquei o pequeno, que estava no meu colo, no chão ao meu lado e me virei para passar veneno nas formigas.

Um instante de distração. Meu filho saiu da lateral e parou atrás de mim. Nesse momento, ele começou a chorar. Me virei rápido, crente de que ele fora picado por uma formiga, mas fiquei paralisada ao vê-lo sacudir o pé e um escorpião sair de perto dele.

Entrei em desespero. Nunca havia visto um de perto, mas cresci ouvindo que era pior que veneno de cobra, que matava.

— O que te mordeu? Perguntei, confirmando o óbvio.

Ele apontou para o bicho.

Meu instinto materno veio à tona. Dei uma chinelada no bicho, coloquei-o em um pedaço de jornal, gritei pelo meu marido e ordenei:

— Toma aqui! Tem que levar para o hospital! Leva as meninas para o carro!

Eu, sempre agitada; ele, em contrapartida, muito parado. Ele seguiu lentamente para o carro com a “preocupação” embrulhada na mão. Eu, com o menino chorando no colo, ainda pegava blusas de frio para as meninas, que estavam agarradas à minha calça, aterrorizadas.

Fechei a casa e corri para o carro. Meu marido esperava sentado ao volante. Ajeitei as duas no banco de trás enquanto segurava o caçula e olhava o dedinho, que inchava e avermelhava rapidamente. Sentei-me no banco do carona com a criança no colo. As meninas choravam:

— Mãe, ele vai morrer?

— Não, claro que não! O médico vai resolver.

Nisso, meu marido me estende o pedaço de jornal. Achei sem sentido e perguntei:

— O que é isso?

— O escorpião. Ele respondeu, com a maior naturalidade.

Não faço ideia do que passou pela minha cabeça, mas imagino que meu cérebro projetou o bicho vivo. Joguei o jornal para o alto, comecei a gritar e já estava prestes a abrir a porta do carro em movimento para sair correndo, quando ouço:

— Você é maluca? Você mesma disse que tinha que levar o bicho!

— Ah, é…

Em meio àquela confusão, desandei a rir. Recompus-me e disse:

— Vamos para o hospital.

Ele saiu revoltado, dirigindo nervoso. No caminho, eu consolava minhas filhas enquanto as duas rezavam de mãos postas durante todo o trajeto. No hospital, meu filho teve prioridade emergencial. Ficou em observação por doze horas e nada aconteceu; ele não piorou.

Na manhã seguinte, os médicos deram alta:

— Aquela espécie é bem venenosa; disseram, após analisarem o bicho que levei. — Mas, se ele não apresentou sintomas até agora, não terá mais nada. Podem ir para casa.

Já em casa, relembrando a cena em que joguei o bicho para o alto, ri de novo. Coloquei meu filho no colo e perguntei:

— Meu filho, o que deu em você? Você nunca colocou a mão em bicho nenhum, sabe que não pode!

— Então, mãe… mas ele mordeu com o rabo!

Rio novamente. Realmente, contra a lógica de uma criança e a rapidez de um escorpião, não há argumento.

……………………..

Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.

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