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Terra

O grito que vem de baixo

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Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Eu a vi ontem de manhã, bem cedo, quando o orvalho ainda fingia que tudo estava bem.

Estava de chinelo, atravessando o quintal para pegar o jornal que o entregador joga por cima do muro como quem atira uma moeda num poço sem fundo. E lá estava ela: a terra do canteiro, aberta em feridas largas, rachaduras que pareciam bocas secas implorando água. Não era só seca. Era cansaço. Um cansaço antigo, de quem carrega casas, gado, tratores, sonhos mal plantados e promessas nunca regadas.

Sentei na beira do canteiro e toquei a terra. Estava morna, febril. Como testa de criança com dengue.

“Você está doente?”, perguntei baixinho, envergonhada de falar com o chão como se ele pudesse responder. Mas respondeu. Não com palavras, com silêncio. Aquele silêncio pesado que as coisas fazem quando já gritaram muito e ninguém ouviu.

Lembrei do avô, lá nos anos 70, quando ainda havia mata cerrada atrás da casa. Ele dizia: “A terra não briga. Ela só vai ficando quieta. Até o dia que fica muda de vez.” Eu achava poesia de velho. Hoje entendo que era aviso.

Aqui em Ipanema-MG (ou em qualquer canto onde o verde já foi mais farto), a gente vê a terra pedindo socorro em pedaços: no rio que virou filete marrom, na poeira que sobe com qualquer vento e entra pela janela junto com a conta de luz mais alta, nas crianças que brincam de cavar buraco e encontram só pedra onde antes tinha barro bom de modelar.

Ontem à noite, na televisão, um cientista de jaleco branco falava em “pontos de não retorno”. Eu pensei: quem inventa esses nomes bonitos para o fim do mundo? A terra não conhece “ponto de não retorno”. Ela conhece abandono. Conhece a gente virando o rosto quando o caminhão de gado passa levantando poeira vermelha, quando a motosserra canta à meia-noite, quando o plástico embrulha o rio e a gente diz “amanhã eu recolho”. Mas ainda há mãos que voltam.

Vi na semana passada uma moça de trança comprida, de calça jeans manchada de barro, plantando mudas de ipê-amarelo na beira da estrada. Cada muda era um pedido de desculpas. Cada regador cheio era resposta ao grito mudo da terra. Ela não falava muito. Só trabalhava. E a terra, devagar, ia se aquietando sob os dedos dela como quem finalmente encontra alguém que escuta.

Talvez seja isso que a terra pede, no fundo: não milagre, não tecnologia salvadora de última hora. Pede ouvido. Pede mão que toque sem machucar. Pede gente que pare de fingir que o silêncio é normal.

Porque quando a terra ficar completamente muda, não vai ser só o fim da chuva. Vai ser o fim da nossa própria voz.

Afinal, de onde mais a gente tira o grito, o canto, o verso, se não for dela?

Então hoje, antes de entrar em casa, tirei os chinelos.

Pisei descalça na terra rachada.

E pedi perdão.

Não sei se ela ouviu.

Mas pelo menos, por um instante, parei de ser surda.

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