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Acrobata

O homem do trampolim da morte

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e foto

“Pintar, vestir, virar uma aguardente para a próxima função. Rezar, cuspir, surgir repentinamente na frente do telão. Mais um dia, mais uma cidade pra se apaixonar. Querer casar. Pedir a mão. Saltar, sair, partir pé ante pé antes do dia clarear. Apagar as pistas de que que um dia li já foi feliz. Criar raiz e se arrancar”
(NA CARREIRA, Chico Buarque/Chico Lobo)

Lembro-me de coisa vagas. Porém profundas.

Da música de abertura do espetáculo com toda a Cia. desfilando pelo picadeiro sob o aplauso frenético da plateia. Eu, o palhacinho Esticadinho, ao lado de meu irmão/parceiro de toda a vida, Marinho, o Pernalonga, desfilávamos soberbos sem jamais sonharmos que um dia leríamos Dom Quixote ou veríamos o filme O Incrível Exército de Brancaleone.

Na verdade, memórias feito páginas que vão se perdendo no tempo. Mas creio que jamais menos vivas que naqueles dias e noites de luz, festa e alegria. E era Epifácio J. Ferreira na locução animando a função; e era Ivan Vieira como O Homem Sapo; as cachorrinhas dançarinas do Mister Demétrius que também era bom mágico; Osni e Beth e A Mulher na Roleta das Facas Voadoras; e lá vinha o Tio palhaço O Perigoso fazendo dupla com o Norico e a plateia quase mijava na arquibancada de tanto rir; Esticadinho e Pernalonga ficavam zanzando pelo picadeiro entre um número e outro animando a ilusão da galera; O Trapézio Mortal, com a família Navarro.. e mais, muito mais… até que:

“RESPEITÁVEL PÚBLICO: CORAÇÕES FORTES E PURA EMOÇÃO. AGORA, NA SUA CIDADE…ZÉ MARIA, O HOMEM DO TRAMPOLIM DA MORTE!!!!!”

Rufo dos tambores, misto de surpresa e ansiedade

Silêncio absoluto. Apagam-se as luzes / Canhão de luz na entrada do picadeiro e surge ele, Zé Maria, um corpo magérrimo, um metro e meio de altura, cabeça grande de nordestino, coragem de super-herói: O HOMEM DO TRAMPOLIM DA MORTE.

Vivas e salvas e o palhaço Perigoso (depois Pepe Legal, meu Tio Neto) preparando a turma da barreira para servir de paredão humano. A traquitana que Zé Maria usava era única: uma tábua parafusada em seis vigas erguidas em ângulo 45 graus do chão, tendo um cavalete como catapulta. O artista vinha correndo e batia os pés na tábua/trampolim e alçava voo…sim… voava por sete metros sobre aquele monte de homens na frente do aparelho. E caia em pé e corria para a plateia como um centroavante na hora do gol decisivo. O circo explodia.

Êxtase, delírio e a vertigem do i-na-cre-di-tá-vel!

OS DIAS E O AMOR

O nosso espetáculo no circo era feito de três partes: picadeiro, a peça teatral e o show radiofônico com Motinha e Nhá Fia. Meu pai e Tio Salim, casado com Joaninha, irmã de minha mãe Nair, eram sócios. Salim o tino comercial, como bom árabe filho de emigrantes. Nosso pai era o cara zen, o cabeça de equilíbrio de tudo. E grande artista também. Aliás, todos eram excelentes artistas mambembes-populares.

Mas voltando ao Zé Maria.

Salim viu aquele sujeito magrelo (“Ele parece um mosquito elétrico, Motinha!”), propôs logo contrato e uma grande carreira pela frente. E Zé Maria ficou. E passou a olhar com rabo d’olho pra menina Neife, a Flor da vida, filha de Tio Salim e Joaninha.

Adiantando a história:

Zé e Neife, 16 anos, se apaixonaram e certa noite, o nordestino Zé Maria fugiu com a a menina Neife e restou a Salim aceitar o amor “atravessado” e houve um belo casamento. Início dos anos 1960 e eu fui Damo de Honra levando as alianças numa incrível catedral gótica inacabada na cidade de Dracena, interior do estado de São Paulo.

Zé e Neife tiveram filhos, todos nós crescemos e seguimos cada um a sua vida.

Zé Maria jamais deixou de ser o nosso “primo adotado”, mesmo depois da separação com Neife.

Na verdade, ainda hoje, às vezes acordo no alto da noite com aquele arrepio na barriga sentindo passar sobre as minhas costas, voando, o Zé Maria, O HOMEM DO TRAMPOLIM DA MORTE. Eu pedia para o meu Tio Neto, o palhaço Perigoso, para me colocar nas costas dele na “barreira humana” por sobre a qual o super Zé saltaria.

Jamais esquecerei a vertigem e o corpo do Zé raspando as minhas costas até cair após quatro piruetas e em pé no fim do picadeiro.

O tempo é mesmo o pai das lembranças, do vivido e da imaginação. Mas aqui é real, concreto.

Quem volta ao passado quer beijar o tempo, como aqueles saltos do Zé Maria, De certa forma todos nós somos O HOMEM DO TRAMPOLIM DA MORTE.

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Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e continua saltando todos os dias do trampolim, lições do primo nordestino Zé Maria. Vive na Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

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