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Câmbio, Terra!

O homem mais solitário da Terra

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Foto Divulgação

“Era o encontro do eu com o eu. Eu estava totalmente só. A solidão é um luxo.”
(Um Sopro de Vida, Clarice Lispector)

16 de julho de 1969. Três homens embarcam em um foguete rumo ao desconhecido. Dois deles, Neil Armstrong e Buzz Aldrin, estão prestes a se tornar figuras eternas na história. O terceiro, Michael Collins, está prestes a se tornar o homem mais solitário do universo.

Enquanto seus companheiros desciam no módulo Eagle para deixar suas pegadas no Mar da Tranquilidade, Collins permanecia no módulo de comando Columbia. Sozinho.

Cada vez que sua órbita o levava para o lado oculto da Lua, qualquer conexão com a humanidade era completamente interrompida.

Durante 48 minutos a cada volta, Collins perdia todo contato por rádio com a Terra e com seus colegas. A 386 mil quilômetros de casa e a cerca de 3.500 quilômetros de qualquer outro ser humano, ele estava em uma cápsula metálica orbitando a aproximadamente 112 km da superfície lunar.

“Estou sozinho, verdadeiramente sozinho e completamente isolado de qualquer forma de vida conhecida; daqui, sinto o silêncio dos espaços infinitos.”

Ainda assim, Collins não temia a escuridão nem o silêncio. Seu medo era mais humano — e muito mais devastador: a possibilidade de voltar sozinho.

Sua maior angústia não era morrer no espaço, mas testemunhar um fracasso sem poder fazer nada. Se o motor do módulo lunar não funcionasse, se seus companheiros ficassem presos na superfície sem combustível ou se o acoplamento falhasse, Collins teria que ligar seus motores e retornar à Terra, deixando-os para trás, condenados a uma morte lenta na Lua.

Ele imaginava o peso de chegar em casa como o “único sobrevivente”, carregando a marca de ter abandonado os heróis do século. Esse pensamento o atormentava mais do que qualquer falha técnica.

Felizmente, a história teve um final feliz.

O acoplamento foi perfeito. O reencontro dos três homens no espaço marcou o desfecho de uma missão que quase nunca é lembrada quando se fala do “grande salto para a humanidade”.

Michael Collins não pisou na Lua, mas sem sua solidão, sua precisão e sua coragem silenciosa, Armstrong e Aldrin jamais teriam voltado para contar a história.

Às vezes, o sucesso não está em ser o primeiro a cruzar a linha de chegada, mas em ser aquele que mantém o motor funcionando no escuro para que os outros possam voltar para casa.

Michael Collins faleceu em 2021, mas sua mensagem ainda ecoa no vazio: “é possível estar sozinho sem se sentir só — desde que exista um propósito que te mantenha em órbita.”
(Michael Collins, o homem mais solitário da Lua)

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Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador que troca constantemente de lugar com o Collins naquele pequeno módulo em órbita lunar. Vive na Guarda do Embaú, vilarejo de pescadores no litoral Sul de SC.

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