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Labirinto

O labirinto de Rosa

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e foto

“Labirinto é o viver, doutor. É o laboratório do trabalho dentro do rodemoinho.”
(Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas – 1956)

No ano da graça de 1956, foram publicadas duas obras referências da literatura mundial. Ambas de Guimarães Rosa: “Corpo de Baile” e o inacreditável “Grande Sertão: Veredas”.

Poderia escrever sobre os dois livros para o resto de minha vida. Porém, é melhor simplificar reduzindo e qualificando: GENIAIS!

Falar da obra de Rosa é sempre uma profusão de prazeres, emoções, desafios e descobertas.

Rosa conseguiu uma fusão entre visão telúrica, filosofia “de dentro” e “psicanálise de fora”. Esquadrinhou o impossível: o Sertão.

Em mais de 700 páginas, um jagunço ancião aposentado, Riobaldo, às margens do Velho Chico, relembra e conta histórias/estórias a um doutor letrado em busca de refletir e responder a três perguntas fundamentais: O Diabo existe? Eu fiz um pacto com o Diabo? O pacto foi a causa da morte de Diadorim?

Durante três dias de conversa livre e intensa, Riobaldo conta a sua história. Porém não de maneira tradicional – começo, meio e fim -, mas com uma narrativa não linear, de tempos sobrepostos, ações e narrativas/causos em camadas, como num labirinto, um caleidoscópio de oralidades e imagens que giram como um moto perpétuo da grande travessia pelo Sertão (físico) e metafísico (costumes, imaginário, cultural).

O Sertão transcendental é, além da matriz nascente do local físico, das narrativas apenas telúricas. Rosa mergulhou no impossível e reinventou o imaginário.

LAVORINTO: palavra inventada – como milhares criadas por Guimarães Rosa -, LAVORINTO faz reduções e ampliações da palavra original.

Mistura o Lavor/trabalho com o desafio do viver/labirinto.

A vida é feita de pequenas texturas. Talvez, apenas após tantas andanças conseguimos perceber o nó e a magia das primeiras tranças.

Vamos ao início. Por que o título “Grande sertão: veredas”?

A primeira pista está nos dois pontos. Deve ser lido de forma pausada, feito samba, com breque. Grande sertão: … veredas. Vale também como conjunção adversativa: o sertão é grande, porém existem as veredas.

O Grande sertão é o mistério da vida, da natureza, dos homens.

A palavra “sertão” possivelmente vem de “desertão”. O grande deserto da falta de sentido que, feito o Liso do Sussuarão, todos nós precisamos ter muita coragem para atravessar.

O que alguns poucos sabem disso são apenas veredinhas, caminhos, que em Minas são também cursos d’água. Isto é, representam a oposição entre a aridez da nossa ignorância e a vida e a alegria que a água (e o conhecimento) nos trazem. Por isso: Grande sertão: veredas.

A EXPERIÊNCIA DO INFINITO

O livro se abre com uma palavra que significa ninharia, mas que aponta para a noção do nada, do início, do vazio: nonada (no-nada). Termina com o símbolo do infinito. O nada é o que existe antes da palavra, da criação, da ficção. Esta é a porta para o infinito de possibilidades que chamamos de literatura.

Parece um livro, mas é, sobretudo, uma experiência iniciática, a entrada em um labirinto de sentidos cuja travessia exige paciência e atenção. Há recompensas a cada passo: as belezas do caminho, as muitas veredas de significado. Há desafios e provocações o tempo todo.

A certa altura, você perceberá que deixou de ler o livro. Pois chegou a hora de deixar o livro te ler, trazendo à tona sentimentos e reflexões.
Você terá se transformado e a partir desta experiência, você será para sempre um “rosiano”, uma “rosiana”. Para sempre no labirinto no-nada e da travessia ao infinito.

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Fonte: Rascunho – Labirinto de significados. https://rascunho.com.br/ensaios-e-resenhas
Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador que lê apaixonadamente há mais de 50 anos o Grande Sertão: Veredas e sabe que jamais chegará ao final. Vive no vilarejo da Guarda do Embaú, litoral de SC.

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