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Saudade

O luto é um território estranho

Publicado

Autor/Imagem:
Dona Irene - Foto Francisco Filipino

O luto é um território estranho.
Às vezes parece silêncio,
às vezes tempestade.
Não existe linha reta.

Há manhãs em que acordo inteira,
Faço café, respondo mensagens,
Sorrio sem culpa.

Então alguma coisa acontece.
O cheiro numa camisa esquecida,
o prato que meu velho pai gostava de usar,
um gesto qualquer de alguém na rua.

E de repente o mundo desaba
dentro de um minuto comum.
O luto é instável assim:
uma maré que muda sem aviso.

Às vezes estou correndo uma maratona
com os pulmões queimando,
as pernas exaustas,
mas sem a possibilidade de parar.

Outras vezes é como atravessar um oceano a nado.
Não vejo a margem.
Não sei quantos dias faltam,
nem se existe mesmo um outro lado.

E existem pequenos confortos,
mas todos têm gosto agridoce.
Porque aquecem
e ferem ao mesmo tempo.

Amar alguém depois da perda
é tocar numa chama acesa.
Mas ainda assim,
em algum lugar dentro de mim,
eu espero.

Espero que um dia
o sol volte a atravessar a janela
com o mesmo brilho de antes.
Não para apagar a saudade,
porque ela ficará,
mas para que a vida, devagar,
consiga florescer ao redor dela outra vez.

…………………………

Dona Irene é colunista diária do Notibras.

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