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Chuva e cerração

O manto da floresta

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

A tarde se curva sob o peso das nuvens,
o céu se desfaz em rios suspensos,
cada gota é um suspiro da eternidade,
caindo lenta, persistente, sobre a pele da terra.

A cerração desce como véu de noiva,
tecendo mistério entre troncos e raízes,
ocultando caminhos, dissolvendo horizontes,
até que o mundo se torne apenas sopro e silêncio.

O canto dos pássaros se recolhe,
o som da chuva é o único cântico,
um tambor suave que embala a mata,
ritmo ancestral que desperta memórias.

E a floresta, vestida de névoa,
parece guardar segredos antigos,
como se cada árvore fosse guardiã
de histórias que só a chuva sabe contar.

No coração da cerração,
há um convite à contemplação:
o tempo se dilui, o olhar se perde,
e o espírito se encontra no invisível.

Assim, a tarde chuvosa não é apenas passagem,
é rito, é pausa, é revelação.
É o instante em que a natureza se casa consigo mesma,
sob o véu translúcido da cerração.

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