Curta nossa página


Paradigmas e paradoxos

O medo alado

Publicado

Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

A temperatura estava deliciosa. Adoro Cachoeiro de Itapemirim exatamente pelo calor, mas convenhamos que a melhor época é entre o final de abril e o mês de maio, quando o clima fica ameno, mas sem chegar ao frio.

Subo o morro caminhando com tranquilidade, sentindo o frescor, admirando as estrelas e o céu limpo. No final da rua, vejo uma mariposa caída. Linda! Suas asas brancas, com linhas pretas e desenhos simétricos vermelhos, chamaram-me a atenção; uma verdadeira obra-prima do Criador. Parei, olhei e segui.

Menos de vinte metros adiante, encontro outra caída — efeitos das lâmpadas de rua. Não resisti e peguei a moribunda. Analisando seus últimos sinais de vida e as cores de suas asas, em minha paixão por borboletas, cogitei até empalhar a bichinha, mas desisti. Coloquei-a de volta ao chão, ainda em agonia, e ri sozinha.

Calma, não ri da sua morte em busca da luz. Ri da lembrança que me veio à mente.

Minha filha mais velha, quando adolescente, desenvolveu um gosto louco por filmes de terror- algo que eu não aprecio. Aos poucos, minha filha do meio passou a acompanhá-la nessas sessões assustadoras. Os resultados pós-filme, algumas vezes, eram hilários. Como, por exemplo, quando ela e um grupo de amigas foram ver *Annabelle* no cinema: uma das amigas levou a Bíblia e passou o filme inteiro repreendendo o demônio.

Pois bem, era nove de março, Festa das Canoas em Marataízes. Fomos nós quatro, mas foi um daqueles finais de semana em que nada dá certo. Acordamos cedo para a procissão dos canoeiros e choveu… choveu uma chuva que não acabava mais. Voltamos para casa todos molhados. Ao passarmos pela casa de uma grande amiga, ela gritou:

— Sobe aí!

— Estamos molhados. Respondi.

— Daremos um jeito!

Estava frio e precisávamos de algo para nos divertir. Subimos, nos secamos e trocamos de roupa. As adultas foram tomar umas cervejas; os adolescentes, ver filme de terror. Foram três filmes. O último chamava-se *Mama*. Não sei bem a história, mas a mãe matava o bebê, ou tentava, sei lá. O fato é que todas as vezes que ela surgia, uma mancha se formava na parede e várias borboletas, ou mariposas, apareciam. Amo borboletas e não entendo por que as usam tanto em obras de suspense ou terror.

Fomos para casa. Chegamos por volta das vinte horas, fui para o fogão e o gás acabou. A opção foi o lanche. Já na lanchonete, enquanto esperávamos o pedido, notei no banco ao meu lado uma grande borboleta se debatendo. Sem saber se ela estava ferida ou morrendo, não conseguia parar de prestar atenção na coitada. Terminamos de comer, paguei a conta, peguei a borboleta, coloquei-a em um saquinho e levei para casa.

Era tarde. Analisei suas asas, não encontrei nenhum problema aparente, coloquei-a sobre a mesa e fomos dormir. Eu e meu caçula em um quarto; as duas meninas no outro. O quarto delas não tinha porta, e era possível ver a borboleta ali na mesa.

Menos de quinze minutos depois, as duas entram no meu quarto:

Podemos dormir aqui?

Pode, mas por quê?

Estamos com medo da borboleta.

Apenas ri e dormimos todos ali. Na manhã seguinte, eu ainda dormia quando meu caçula e a mais velha vieram me acordar, alvoroçados:

A borboleta sumiu!

Que bom, sinal de que está bem e voou — Respondi, ainda sonolenta.

Estamos com medo! E se ela estiver escondida dentro de casa?

Não estou entendendo esse medo. É só uma borboleta e vocês sabem que eu gosto delas.

É, mãe, mas a senhora viu o filme ontem?

Ri novamente.

Vi, mas você não dizia que amava filmes de terror? Perguntei à mais velha.

É, eu gostava. Desde ontem não gosto mais! Estou com medo, e no filme tinha borboletas…

E vocês estão com medo de uma borboleta real por causa de um filme, depois de terem assistido a tantos outros? São doidos!

Não, mãe… é que no filme a mãe era má. E mães não podem ser más. Nunca mais vou assistir a filmes de terror!

……………………

Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.