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AFETOS REFEITOS

O MILAGRE DE UM BOM CAFÉ

Publicado

Autor/Imagem:
Fabiana Saka - Francisco Filippino

Olhando pela janela, ela observava o sol da tarde iluminando seu quintal. As brincadeiras e risadas das crianças vizinhas, ao mesmo tempo que alegravam, deixavam uma sombra em seu coração, lembrando-a das experiências que, por desleixo, não viveu.

Em seus quase cinquenta anos, sentia o peso das memórias que não criou, os milhos de pipoca que não estouraram na panela de sua cozinha deixando cheirinho de lar para suas crianças, dos brigadeiros que nunca se transformaram em pequenas colheres de felicidade.

Nos momentos de reflexão, a culpa pela mãe que não foi a consumia. Não foram as obrigações do dia a dia que a impediram de ser a mãe afável que poderia ter sido, mas uma frieza emocional que a afastara das pequenas. Foi criada sem afagos, sem beijinhos, sem agrados, acabou oferecendo a suas filhas a mesma secura que recebeu em sua infância.

Infelizmente, na época em que suas filhas eram pequenas, não circulavam as informações que hoje estão na palma da mão. Conhecimentos que orientam a importância dos bons vínculos, a riqueza das experiências em família. Ela via as mães de hoje nos parques, oferecendo lanches especiais que prepararam antecipadamente com esmero, fazendo atividades em conjunto, desfrutando com seus filhos de um tempo que ela, quando teve oportunidade, não soubera aproveitar. Não teve a sensibilidade de oferecer às suas crianças momentos simples, mas com significados de união e felicidade. Era a mãe prática, a mãe funcional.

Hoje, suas filhas, jovens adultas, estão longe da inocência infantil e dependência do calor e atenção da mãe. As crianças não existiam mais, e ela acreditava que suas chances de aproximação morreram com o final da infância de suas meninas.

Foi num cafezinho da tarde, cercada por colegas de trabalho que viviam experiências parecidas, que algo mudou, surgindo esperança dentro de si. Enquanto compartilhavam histórias de suas vidas domésticas, desentendimentos com cônjuges que azedavam o fim de semana, filhos em fase de rebeldia, almoços de domingo que terminaram em caos, bola fora desses pais ou desses filhos que acontecem o tempo todo na vida de todos e ainda assim, seguimos adiante, que, ouvindo esses relatos e assimilando-os com seu cafezinho, ela percebeu que não era sozinha em sua dor interna.

— Os problemas são sempre os mesmos, só mudam de endereço! — dizia um.

— Filhos criados, trabalho dobrado, não dá para fugir do lugar comum — outro respondia.

Encontrou nesses colegas de trabalho, na rápida convivência da hora do café, um afeto e uma troca que não esperava. Entendeu que bons momentos familiares não se resumiam a situações passadas, que não se podiam mais resgatar. E que momentos felizes se fazem agora. Que, vez ou outra, podemos mudar a direção dos ventos ao nosso favor. As risadas, as confidências felizes e amargas de seus amigos a inspiraram a agir:

— Ainda não é tarde demais para reescrever a minha história.

Animada e com esperança em seu coração, escolheu um final de semana diferente. Suas filhas, que sempre estavam na casa de seus namorados, foram chamadas para um lanche da tarde no sábado. Solicitou gentilmente que trouxessem seus pares, torcendo para que, a partir desse pequeno início, pudessem compartilhar risos, histórias, enfim… se reconectarem. As jovens estranharam a atitude, se entreolharam, perguntaram se estava tudo bem, se era alguma comemoração, se ela queria dizer algo.

—  Está tudo bem, apenas estejam aqui para nosso lanche, tragam seus convidados.

Chegado o sábado, enquanto preparava o espaço em casa, sentiu um misto de ansiedade e excitação; era um passo pequeno, mas era o início. Queria que tudo corresse bem, e correu!

Nessa tarde, a mesa simples e bonita estava posta. Pãezinhos frescos, bolo, café e sorrisos iluminando a mesa encheram seu coração de um calor que há muito não sentia. À distância, observava suas filhas visivelmente felizes, soltas, em sua alegria divertida, característica dos jovens. Em sua cabeça, passou novamente a sombra do pensamento “tão simples, por que não fiz isso antes?” Mas despachou o pensamento imediatamente. Estava criando momentos agora. Em uma nova fase, mais amadurecida como mãe e como mulher, daria a suas filhas presença de qualidade. Devia essa felicidade não somente a elas, mas a si mesma.

Nos cafezinhos rápidos do trabalho, criou laços de amizade e trocas de confidências e, na leveza dessas conversas despreocupadas, entendeu que outros laços podem ser revigorados com boa vontade e pequenos gestos de amor.

Em seu coração, entendeu que não há espaço para vitimização. O que passou não tem retorno. Entre a culpa do passado e a esperança de melhorar o vínculo com as garotas, encontrou um novo caminho, um espaço onde os afetos podem ser desenvolvidos na simplicidade de uma tarde repleta de momentos de qualidade em família.

Ao observá-las se divertindo, mesmo que houvesse dentro de si uma dor das coisas que não foram, sentiu que, finalmente, iniciava uma nova fase de sua vida.

Ali, naquele lanche, nasceu a promessa renovada de que seu amor e presença sempre irão florescer, não importa a idade dos filhos e o tempo que tenha passado.

O milagre de um bom café.

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Fabiana Saka (@fabianasaka), escritora e psicóloga clínica no Rio de Janeiro, é autora de “As Aventuras de Daniel – não tenha medo de si mesmo” (Ed. Ases da Literatura, 2024), e colaboradora do Café Literário.

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