O retorno da barbárie
O perigoso flerte dos EUA com regimes autoritários
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Há manchetes que, por si só, já são um diagnóstico. “Governo diz que voltará a aplicar injeção letal para penas de morte e pode adotar fuzilamento e asfixia em âmbito federal.” Quem lê isso, num primeiro momento, pode imaginar tratar-se de alguma tirania distante, talvez um regime autoritário no Oriente Médio. Mas não. Trata-se do governo dos Estados Unidos, um país que por décadas foi celebrado como a maior democracia do mundo. E é justamente aí que reside o choque: quando práticas que evocam tempos sombrios passam a ser normalizadas em uma nação que sempre se apresentou como guardiã das liberdades.
O que está em jogo é o caminho político que essa decisão revela. Fuzilamento e asfixia são imagens carregadas de história, associadas a períodos em que o Estado exercia seu poder de forma brutal, muitas vezes para afirmar autoridade pelo medo. Quando um governo contemporâneo cogita resgatar esses instrumentos, o que se vê é um retrocesso civilizatório, um flerte perigoso com práticas que a humanidade tentou deixar para trás.
Democracias se desgastam lentamente, decisão após decisão, quando direitos são relativizados e a violência estatal passa a ser vista como solução legítima. O que antes era impensável torna-se debatido, depois aceitável, e por fim institucionalizado. É assim que se constrói um governo com traços cada vez mais medievais, mesmo sob a fachada de instituições modernas. E talvez o mais alarmante não seja a medida em si, mas o fato de que ela já não cause a indignação que deveria.