Sapiência
O pescador e o lavrador
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Era uma manhã de sol tímido na beira do rio que desaguava no mar. O lavrador, de chapéu de palha amassado pelo tempo, carregava uma enxada no ombro e um saco de mudas de mandioca na outra mão.
Parou na margem para lavar o rosto na água doce que ainda não se misturava com o sal. Foi quando viu o pescador.
O homem vinha remando devagar, numa canoa estreita feita de um só tronco. A rede, dobrada ao lado, ainda pingava. Tinha pescado pouco naquela alvorada: uns cinco ou seis tainhas prateadas que se debatiam no fundo do barco. O suficiente para o almoço da família e talvez um trocado no mercado.
— Bom dia, compadre — disse o lavrador, acenando.
— Bom dia, seu Zé da roça — respondeu o pescador, com voz rouca de quem fala mais com o vento do que com gente.
— Como vai a terra?
— Vai sofrendo, como sempre.
A seca apertou, mas a mandioca ainda resiste. E o mar?
O pescador deu de ombros, um gesto que carregava anos de rede vazia e rede cheia.
— O mar é mulher ciumenta. Hoje dá, amanhã esconde. Mas nunca deixa a gente morrer de fome de vez.
Os dois ficaram em silêncio um instante. O rio corria entre eles como um fio que une e separa ao mesmo tempo. O lavrador sentou numa pedra lisa, tirou o chapéu e enxugou a testa.
— Sabe, compadre — começou ele —, às vezes eu olho pra sua canoa e penso: que vida boa. Não tem cerca, não tem patrão, não tem que implorar chuva. Só joga a rede e espera.
O pescador riu baixo, um riso que parecia vir do fundo do peito.
— E eu olho sua roça e penso o contrário. Você planta, cuida, conversa com a terra. Se chover, colhe. Se não chover, pelo menos sabe por que perdeu. Eu? Jogo a rede no escuro. Pode vir tubarão, pode vir rede rasgada, pode vir nada. E no fim do dia, se não vier peixe, não tem conversa que convença a barriga.
O lavrador coçou a barba rala.
— Mas você é livre, não é? Vai quando quer, volta quando quer.
— Livre pra passar fome também — retrucou o pescador. — Liberdade é bonito no verso. Na vida real, liberdade vem com muito vento na cara e muito sal na ferida.
Mais silêncio. Uma garça passou voando baixo, quase roçando a água. Os dois acompanharam o voo com os olhos.
— Sabe o que eu acho? — disse o lavrador, depois de um tempo. — A gente vive achando que o outro tem a parte boa.
Você olha minha terra firme e eu olho seu mar aberto. Mas no fundo, a gente tá plantando e pescando a mesma coisa: esperança.
O pescador amarrou a canoa na raiz de um jenipapo que crescia torto na margem. Desceu, pegou duas tainhas maiores e estendeu pro lavrador.
— Toma. Pra temperar o feijão de hoje. E me traz um pedaço daquela mandioca assada na brasa quando colher, que eu tô com saudade de cheiro de terra quente.
O lavrador aceitou o peixe com um sorriso.
— Combinado. E você me traz um conto de mar pra contar pros meninos à noite. Eles adoram essas histórias de peixe que escapa da rede.
Os dois apertaram as mãos calejadas — uma cheirava a barro úmido, a outra a sal e corda molhada.
Depois cada um seguiu seu caminho: o lavrador subiu a encosta com as mudas e o peixe, o pescador voltou a remar rio abaixo, rumo ao mar.
E o rio continuou correndo, indiferente, levando um pouco da terra e um pouco do sal, misturando tudo no caminho.
Porque, no fundo, lavrador e pescador sabem: a vida não é sobre escolher mar ou terra. É sobre aprender a esperar — da chuva, da maré, do sol, da lua — com a mesma paciência quieta de quem já perdeu muito e ainda assim acorda todo dia pra tentar de novo.