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Padre Bernardo-GO

O peso de uma escolha

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Minha mãe tem certas coisas que é melhor nem discutir, como se fosse déspota ciente do próprio esclarecimento sobre tudo. E não pense você que não tentei alguns argumentos, tolos, como ela se refere aos meus e do Rômulo, o caçula.

— Sexta vocês vão pra fazenda.

— Mas, mãe, o aniversário do Marcos é no sábado. Já combinei de ir.

— Pois vá no do próximo ano, que nem sei se seu avô vai estar vivo até lá.

— Mas, mãe!

— Maria Lúcia, a conversa acabou aqui. Agora vá arrumar seu quarto, que não sou sua empregada.

Assim que virei as costas, ouvi minha mãe perguntando se o Rômulo queria falar alguma coisa. É óbvio que não, ainda mais depois do que ele acabara de presenciar. Tola fui eu de ainda querer bater de frente com a ditadora da nossa casa. Nossa?

Não teve jeito, acabei inventando uma desculpa para o Marcos, com quem estava muito a fim de dar uns beijos e, dependendo da química, engatar um namoro. Que gato! Aqueles cabelos que não param quietos, sempre obrigando o lindão a tirá-los dos olhos. Ah, e que olhos são aqueles? De tão grandes, os cílios parecem querer me tocar sempre que me aproximo.

— Ah, Marcos, não vai dar. Meu avô tá pra morrer, os médicos já o desenganaram, minha mãe disse que precisamos ir visitá-lo antes de… Você sabe, né?

— Sim, gata! É claro que entendo. Sua mãe está certa. A gente se vê.

Como não dava para fugir de casa naquele final de semana, lá fomos meu irmão e eu, de ônibus, até Padre Bernardo. Descemos antes a poucos quilômetros antes da cidade, próximo a uma estrada de chão, onde vovô já estava nos esperando em sua velha camionete azul. Rômulo e eu corremos para abraçá-lo e, naquele momento, era como se o Marcos deixasse de ser prioridade. Além do mais, como ele havia me dito, “A gente se vê”.

Depois dos beijos, abraços e palavras típicas de avô quando passa alguns dias sem ver os netos – “Nossa, como vocês cresceram!”, “Vocês têm certeza de que são mesmo os filhos da minha filha? Estão tão grandes!”, “Maria Lúcia, não conte pra sua mãe, mas você está mais linda do que ela na sua idade” – lá fomos nós a caminho da fazenda.

Mal chegamos, foi aquela sensação de que, de algum modo, eu pertencia àquele lugar. Lembranças da minha infância querendo ir várias vezes até o galinheiro para saber se havia mais algum ovo para recolher. Nesse tempo vovó ainda estava conosco, e era com ela que passava a maior parte do tempo. Contadora de histórias, algumas de assombração, me fazia dormir abraçada ao meu irmão, mesmo ele sendo ainda praticamente um bebê. O que o Rômulo poderia fazer para me proteger de monstros assustadores? Jogar uma fralda suja neles? Ah, vovó, quanta saudade!

Meu avô ficou desolado. Não deve ser fácil ficar viúvo, mas ele continuou, como se querendo preservar a memória da esposa. Mais de 50 anos de casamento. Cinquenta, algo que terei daqui a… Nunca fui muito boa em fazer contas de cabeça, mas sei que precisaria de mais mãos para contar.

No final de semana descobri algo que imaginava ser só minha avó que sabia fazer, que é contar histórias. Vovô, por trás daquele bigode de homem bravo, nos contou várias coisas da sua infância. Antes era difícil me fazer acreditar que gente velha já foi criança um dia, mas hoje é mais fácil, ainda mais quando percebo tantas mudanças que aconteceram comigo nos últimos meses.

Uma das coisas que meu avô me contou foi quando ele se embrenhou em uma mata fechada com o Tigre, seu pequeno vira-lata caramelo com branco. Ele disse que estava com mais ou menos oito anos e gostava de se sentar na mata para escutar passarinhos.

— Vô, mas o senhor não tinha medo de cobra?

Esse aí foi o Rômulo, que não consegue ouvir uma história sem encher o contador de perguntas.

— Tem que manter os olhos bem abertos e não mexer com as cobras, que elas não saem correndo atrás da gente.

Vovô é um amor, né? Se fosse tio Cláudio, já respondia que era só levar um facão para cortar o bicho ao meio. Porém meu avô é pura gentileza, o que me faz sentir que vovó ainda está por aqui.

Naquele dia, meu avô e o Tigre se embrenharam muito fundo no mato, foram parar em um local cheio de pássaros, os cantos inebriantes. Quando os dois perceberam, já era fim de tarde, quase noitinha. E lá foi o Rômulo encher nosso avô de perguntas.

— Vô, e como vocês voltaram?

— Voltando.

— Usaram o GPS, né?!

— GPS? Não, Rômulo. Naquele tempo não tinha GPS, mas eu tinha o Tigre, que era mais confiável do que qualquer GPS.

Eu queria ter conhecido o Tigre. Pena que não tem nenhuma fotografia dele, mas consigo imaginar como aquele cachorrinho era, de tanto meu avô me contar. Hoje em dia, tem a Lara, uma mestiça caramelo com branco. Ela não é tão miúda como imagino que tenha sido o Tigre, mas é bem esperta. Será que é parente do Tigre? Vai ver é tataraneta dele.

Rômulo e eu voltamos para Brasília no domingo. Vovô nos levou até o ponto do ônibus. Que vontade de voltar logo para lá, mas a escola me aguardava. E o Marcos também, era o que eu imaginava.

Na segunda-feira, tive o que minha mãe me disse ser a primeira desilusão amorosa. Você acredita que o Marcos estava de mãos dada com a Larissa, a minha melhor amiga? Amiga?

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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