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Imbróglios pernambucanos

O rega-bofe

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Francisco Filipino

Tudo naquela casa era motivo de festa, seja pelo aniversário de alguém, seja por conta até do nascimento de mais uma ninhada da Bisnaga, a cachorrinha de pernas curtas e corpo roliço que adorava se deitar ao lado da Arlete, a matriarca da família. Durante tais eventos, toda a vizinhança era convidada. Quase ninguém faltava, mesmo porque a comida era farta até mesmo para os mais esfomeados.

Diante de tamanha comilança, as filas dos banheiros se tornavam um inconveniente, ainda mais para as mulheres, que não tinham como levantar as saias ou abaixar as calças atrás das moitas do enorme jardim. Muito arriscado! Já os homens, quando a necessidade era apenas líquida, qualquer tronco das inúmeras árvores era o suficiente para esconder as vergonhas dos olhares mais curiosos.

Aquele rega-bofe era para comemorar a aprovação da Ritinha, a mais nova das netas de Arlete, no concorrido vestibular da UFPE. Pois é, a garota, que mal havia completado 18 anos, estava prestes a se mudar para Recife. Não que a distância fosse muita, pois o Recife, rodeado de muito Pernambuco e um tiquinho de tantos outros lugares, não ficava longe da sua pequena cidade.

A jovem, talvez pela timidez, não parecia tão feliz com o seu feito. Já Agrísio, o pai, era todo orgulho. Era uma coisa de minha filha pra cá, minha filha pra lá, que até a esposa, Santinha, começou a ficar incomodada. Não que também não estivesse contente com a conquista da Ritinha, mas, assim como a filha, era reservada.

O rega-bofe já avançava para a metade, quando Agrísio, com os ânimos exaltados pelos inúmeros goles de cerveja e outras bebidas mais quentes, quis fazer o discurso de praxe. Foi prontamente impedido pela esposa, com a anuência da sogra. Até a Arlete sabia que o filho, quando estava tresloucado, precisava ser contido. Dessa forma, tomou-lhe a frente o Pompílio, um agregado da mais alta confiança da casa.

Todos os presentes se aproximaram para ouvir a palestra do Pompílio, que até poderia ter sido breve, caso não tivesse percebido o entusiasmo da matriarca. A cada frase dita, Arlete abria aquele sorriso de aprovação. Até a Ritinha, agarrada aos braços da mãe, pareceu gostar de tantos elogios, que nem ela sabia ser merecedora. Agrísio, emburrado no canto, compartilhava o mesmo anseio de grande parte da plateia. Não via a hora daquele falatório terminar.

Arlete cumprimentou Pompílio pelas belas palavras. Até ela, que era letrada, desconhecia um ou outro daquele amontoado de vernáculos. Todos aplaudiram o locutor oficial do momento e, rapidamente, retornaram para coisas mais interessantes: a abarrotada mesa de comes e bebes e, em especial, para aquela deliciosa feijoada.

Uma semana após aquele evento, o povo da rua ainda comentava a generosidade da velha. Agrísio continuava contrariado por ter sido calado pela própria mãe. Santinha andava chorosa pelos cantos de saudade da filha. Arlete, ao lado do agora quase inseparável Pompílio, parecia satisfeita com mais aquele evento bem-sucedido. Quanto à Bisnaga, a cachorrinha andava mal dos bofes. Talvez tenha comido algo indevido ou, então, aquilo era o prenúncio de uma nova gravidez.

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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