Velho
O rio que sabe
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O rio não tem nome fixo na boca das pessoas daqui. Uns chamam de “o rio”, outros de “velho”, como se fosse tio avô que já viu tudo. Ele nasce lá em cima, onde a serra ainda guarda neblina e segredo, pinga gota a gota das raízes antigas, junta-se a outras gotas tímidas e começa a andar. Primeiro devagar, serpenteando entre pedras musgosas, depois ganhando força, abrindo caminho entre vales, carregando barro vermelho, folhas secas, pedaços de sonho que alguém deixou cair na margem.
Ele passa pela roça do seu Zé, onde a enxada descansa ao entardecer e o cheiro de mandioca assada sobe junto com o vapor da água. O lavrador chega na beira, tira o chapéu, molha a nuca e fala baixo: “Tá vindo forte hoje, hein, compadre?”. O rio responde com um murmúrio que ninguém decifra, mas todo mundo entende — é o jeito dele de dizer que sim, que traz peixe, que traz alívio, que traz também lembrança de quando veio seco e deixou a terra rachada como pele velha.
Mais abaixo, na curva onde a canoa do pescador sempre amarra, o rio fica mais largo, mais quieto. Ali ele carrega o sal do mar que já sente chegando. O pescador joga a rede e espera. O rio entrega às vezes, às vezes guarda. Mas nunca mente: se a água está turva, é porque choveu forte lá em cima; se está clara demais, é porque a seca apertou.
Ele é o único que não precisa de palavra pra contar a verdade.
No fim do caminho, quando o mar aparece no horizonte como um espelho maior, o rio hesita um instante. A água doce dança com a salgada, forma redemoinhos, listras verdes e azuis que não se misturam de imediato. É o encontro das águas — um abraço demorado, quase tímido. O rio entrega tudo o que trouxe: barro, peixe, folha, história, lágrima de alguém que chorou na margem anos atrás. O mar aceita, engole, transforma. E o rio deixa de ser rio pra virar parte de algo infinito.
Mas mesmo ali, no estuário, ele ainda sussurra.
Quem encosta o ouvido na concha ouve não o mar, mas o rio contando baixinho: “Eu passei por pedras, por pontes, por barragens, por crianças que jogaram pedrinha pra ver onda, por velhos que lavaram o rosto na minha água antes de ir embora pra sempre. Eu carrego tudo. E continuo andando.”
Porque o rio sabe: não é sobre chegar. É sobre ir. Sobre levar e trazer. Sobre lembrar que a vida é corrente — às vezes calma, às vezes brava, mas sempre em movimento.
E que, no fundo, todo mundo que vive na margem dele é um pouco rio também: nasce pequeno, cresce juntando pedaços dos outros, carrega o que pode, entrega o que deve e, um dia, deságua em algo maior.
E o rio segue. Sempre segue.
Enquanto houver terra molhada e céu que chove, ele estará lá — contando, sem pressa, a crônica que ninguém escreveu, mas todo mundo sente.