Língua antiga
O semeador de silêncios
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Antes que a cidade desperte seus relógios de metal,
ele já dialoga com a aurora.
O céu ainda guarda estrelas nos bolsos do breu
quando seus pés descalços ou calçados de couro gasto
pisam o orvalho que a terra oferece como oração matinal.
A enxada não é ferramenta: é língua antiga.
Enterra-se na argila vermelha de Minas
como quem sussurra segredos a uma mãe idosa.
Cada cova aberta é um berço para grãos miúdos:
milho que sonha virar espiga dourada,
Café que floresce como véu de noiva,
feijão que trepa em varas de bambu como menino em perna de mangueira,
mandioca que demora no ventre escuro, paciente como avó contando causos.
O sol chega implacável, beija a nuca curvada,
desenha rios de suor que escorrem como lágrimas de esforço.
Ele não ergue a voz contra o calor;
em vez disso, curva mais o corpo,
passa a palma calejada na folha tenra,
afasta a praga com dedos que conhecem a dor da planta ferida.
É tutor, é pai, é amante da terra teimosa
que dá pouco, mas dá com verdade.
Meses viram estações em sua pele enrugada.
Chuva que encharca até os ossos vira bênção;
seca que racha o chão vira prova de fé.
Ele amarra, protege, espera
o tempo não é inimigo, é companheiro lento.
E quando a colheita desponta,
é festa sem fanfarra:
raízes arrancadas com reverência,
espigas debulhadas como quem acaricia lembranças,
café vermelho espalhado no terreiro para secar sob o olhar cúmplice do sol.
O cheiro de palha fresca sobe como incenso,
e o suor, agora doce, mistura-se à poeira que dança no ar.
Depois, o que brotou de suas mãos viaja.
No jipe rangente ou na carroça de madeira,
desce morros, cruza pontes, chega às cidades
onde luzes artificiais ofuscam as estrelas.
Torna-se saquinho na prateleira, farinha na lata,
pó preto na cafeteira da manhã apressada.
A gente abre o armário, pega, consome,
e esquece o nome do homem que dobrou a espinha
para que o pão brotasse da terra dura.
Ao entardecer, ele senta na soleira de porta sem trinco,
acende o cigarro de palha, solta a fumaça devagar
como quem devolve ao céu o que a terra lhe emprestou.
Olha o horizonte onde o sol se deita atrás do morro,
e no silêncio da roça ouve o pulso quieto da vida:
plantar, cuidar, colher, nutrir.
Um ciclo que não pede medalha,
mas que move o mundo inteiro
com o ritmo manso de suas mãos.
Seu Zé, seu João, seu Antônio sem sobrenome famoso…
vocês são os poetas sem papel,
os versos vivos que a terra declama
para que nós, na cidade distante,
possamos ainda provar o gosto de existir, do fruto do homem do campo que alimenta o homem da cidade.