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Instabilidade geral

Ordem mundial enfrenta uma nova era de fadiga

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Durante décadas, o mundo aprendeu a funcionar acreditando que as grandes crises eram episódios excepcionais. Guerras terminavam, economias se reorganizavam, governos caíam e novas lideranças surgiam prometendo restaurar estabilidade. O noticiário internacional dos últimos meses começa a transmitir outra sensação. A de que a instabilidade deixou de ser passageira e passou a integrar o funcionamento normal da ordem global.

O desgaste político de Keir Starmer no Reino Unido talvez seja apenas um dos retratos mais visíveis dessa fadiga. A crise do premiê britânico não nasce apenas de um resultado eleitoral ruim ou de disputas internas do Labour. Ela parece refletir algo maior: a dificuldade crescente das democracias ocidentais em oferecer segurança emocional, econômica e institucional às suas próprias sociedades.

A Alemanha enfrenta o avanço da direita radical impulsionado pelo cansaço econômico e migratório. A França volta a operar sob lógica permanente de gestão de crise. A Espanha tenta preservar Pedro Sánchez como uma das últimas referências de uma social-democracia europeia cada vez mais pressionada. Nos Estados Unidos, Donald Trump atravessa uma guerra desgastante com o Irã enquanto inflação, energia cara e tensão geopolítica voltam a pesar diretamente sobre o cotidiano americano.

Talvez o traço mais importante desse período seja justamente a erosão simultânea das lideranças tradicionais. Não se trata apenas de governos impopulares. Existe uma percepção crescente de que as grandes democracias perderam parte da capacidade de organizar previsibilidade política e econômica de longo prazo.

A guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e o estreito de Ormuz acelerou ainda mais essa sensação. O petróleo voltou a funcionar como variável de instabilidade global, pressionando inflação, cadeias logísticas e bancos centrais num momento em que boa parte das economias já demonstra sinais de exaustão social. O Federal Reserve americano, por exemplo, aparece cada vez mais encurralado entre a necessidade de controlar preços e o risco de desacelerar ainda mais a economia.

Ao mesmo tempo, outro movimento silencioso começa a ganhar força. Países médios passaram a confiar menos nas velhas estruturas de proteção internacional e procuram construir alianças próprias, militares, comerciais e energéticas, sem dependência absoluta de Washington ou Pequim. A lógica da Guerra Fria, baseada em alinhamentos rígidos, vai cedendo espaço para um ambiente mais fluido, pragmático e desconfiado.

A China talvez seja quem melhor percebeu essa transição. Pequim tenta ocupar o espaço de potência previsível justamente num momento em que parte do Ocidente transmite desorganização, polarização interna e dificuldade crescente de coordenação política.

Há ainda um componente novo tornando esse ambiente mais delicado. A corrida tecnológica militar deixou de ser apenas uma disputa de armamentos clássicos e passou a envolver drones, inteligência artificial, automação e sistemas capazes de alterar profundamente a lógica dos conflitos futuros. A tecnologia avança numa velocidade muito maior do que a capacidade política das democracias de construir consensos sobre seus limites.

Nem mesmo os riscos sanitários desapareceram do horizonte. O avanço do hantavírus na Europa funciona quase como símbolo de um tempo em que governos precisam administrar simultaneamente guerra, inflação, radicalização política, pressão migratória, insegurança energética e novos alertas epidemiológicos sem conseguir oferecer à população qualquer sensação duradoura de estabilidade.

O que emerge desse cenário talvez não seja exatamente uma nova ordem mundial já consolidada. Parece mais um período prolongado de transição desordenada, em que antigas referências perderam força antes que outras plenamente confiáveis conseguissem ocupar seu lugar.

E talvez seja justamente essa a principal marca do nosso tempo: o mundo continua funcionando, mas já não transmite convicção de que alguém esteja realmente no controle da direção para onde ele caminha.

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