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Irã x EUA

Ormuz volta a ferver e paz pode naufragar

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Antônio Albuquerque - Foto de Arquivo

Quando Estados Unidos e Irã anunciaram, em 17 de junho, um acordo inicial de paz para interromper a guerra iniciada no fim de fevereiro, a expectativa internacional era de que o Oriente Médio começasse, lentamente, a respirar. O entendimento jamais foi visto como definitivo. Era, na prática, uma trégua sustentada por interesses estratégicos e pela exaustão de meses de confrontos.

Bastaram poucos dias para que essa esperança fosse colocada à prova.

A troca de ataques registrada nas últimas horas representa o primeiro confronto direto entre Washington e Teerã desde a assinatura do acordo. Os Estados Unidos afirmam que o Irã violou o cessar-fogo ao promover ações militares na região do Estreito de Ormuz. Teerã, por sua vez, sustenta que apenas respondeu aos bombardeios norte-americanos realizados horas antes contra alvos iranianos, acusando Washington de romper primeiro os compromissos assumidos.

Independentemente de quem tenha apertado o gatilho inicial, um fato se impõe: o cessar-fogo deixou de ser um instrumento de confiança para transformar-se em mais um motivo de disputa política e militar.

O cenário é particularmente preocupante porque o palco da nova escalada é justamente o Estreito de Ormuz, um dos corredores marítimos mais estratégicos do planeta. Por ali passa uma parcela significativa do petróleo e do gás natural consumidos pelo mundo. Qualquer instabilidade naquela região rapidamente repercute nos preços internacionais da energia, no transporte marítimo e, consequentemente, na inflação global.

A lógica da dissuasão também parece ter voltado ao centro da crise. Os Estados Unidos procuram demonstrar que responderão imediatamente a qualquer ameaça à liberdade de navegação e aos seus interesses militares. O Irã, por outro lado, busca mostrar que continua capaz de retaliar e de impor custos elevados aos adversários, mesmo após meses de guerra e de intenso desgaste interno.

Essa dinâmica cria um círculo perigoso. Cada ataque é apresentado como “retaliação”. Cada resposta passa a justificar uma nova ofensiva. O resultado é um conflito que pode crescer sem que qualquer das partes admita formalmente estar abandonando a paz.

Outro aspecto relevante é o efeito político doméstico. Tanto em Washington quanto em Teerã, recuar pode ser interpretado como sinal de fraqueza. Em momentos de elevada tensão, líderes costumam sofrer forte pressão de setores militares e nacionalistas para responder com mais intensidade, reduzindo o espaço para negociações diplomáticas.

Isso não significa, necessariamente, que uma guerra em grande escala seja inevitável. Pelo contrário. Há razões econômicas, militares e diplomáticas para que ambos os governos evitem um confronto aberto e prolongado. Nenhum dos dois parece interessado em reconstruir o cenário de guerra total vivido nos primeiros meses do conflito. Mas também ficou evidente que o acordo de paz assinado há apenas dez dias ainda está muito distante de representar estabilidade permanente.

O maior desafio, agora, será impedir que uma sequência de represálias transforme incidentes localizados em uma nova escalada regional, envolvendo aliados, bases militares, grupos armados e rotas comerciais estratégicas.

No Oriente Médio, a paz raramente se rompe de uma única vez. Ela costuma desaparecer aos poucos, substituída por sucessivas violações que, individualmente, parecem administráveis, mas que, somadas, acabam tornando inevitável uma nova explosão de violência.

Os acontecimentos deste sábado servem exatamente como esse alerta. O acordo continua existindo no papel. Na prática, porém, sua resistência passa a depender menos das assinaturas diplomáticas e muito mais da capacidade de Washington e Teerã de interromper uma perigosa espiral de ação e reação antes que ela saia definitivamente do controle.

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