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Entre motores e Kafka

Os estranhos ponteiros do relógio

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

A velhice não me incomoda. Mentira, incomoda em parte. Dia desses uma colega de trabalho, a Laura, me disse que o seu corpo havia envelhecido, mas a mente continuava jovem. O que isso significa? Eu não quero ter a mente jovem, quando a paixão por motores e velocidade me afastavam de Kafka. Ah, quão tolos podemos ser aos 20 anos!

Pior é que os colegas concordaram com a Laura. E lá fiquei eu com cara de boboca. Boboca? Pois é, meu amigo, eis que aqui estou usando palavra do tempo do ronca, como se fosse incapaz de escapar do que sou. Velho, aos 67 anos, justamente o que imaginei, aos 10, o que meu pai fosse aos 36.

Meus joelhos doem. Minha coluna suplica por uma aposentadoria digna. Empurro os óculos para a ponta do nariz para tentar enxergar quando a velhice chegou. Biologicamente, sei que morremos a cada dia, antes mesmo de chegarmos ao mundo, porém somos ainda jovens e nem nos damos conta do inevitável para os de nossa espécie que atrevemos a durar. E, por favor, não me entenda mal. Quero durar o tempo que der e, se não for pedir muito, ainda mais um tanto para me esbaldar com um pote inteiro de sorvete em Copacabana. Em frente ao mar, antes que o corpo se derreta por completo.

— É isso aí, Laura!

— Maravilhosa!

— Você me inspira, Laurinha!

Tantas bajulações, e eu ali, aquele desconforto típico de quem foi pego com um coringa extra na manga. Por um instante, a dúvida de levantar ou não me consumiu. Queria sair dali, mesmo que por um momento. Falariam de mim? Certamente! Mas o quê? “Vocês viram como o Júlio tá razinza?”, “Ah, isso é por causa da idade”, “Sério?”, “É, meu avô ficou assim também”. As frases começaram a invadir a minha mente sem cerimônia, que não aguentei, me levantei e fui até a copa tomar café. Precisava me acalmar me empanturrando de cafeína.

Não me lembro exatamente de quanto tempo fiquei por ali. Os ponteiros do relógio correm de modo estranho quando estamos incomodados com algo, às vezes ansiosos; outras, apenas com desejos honestos de pular de um viaduto.

Quando percebi que precisava encarar o trabalho novamente, dei um último gole no café. Aliás, deveriam melhorar a qualidade do pó por aqui. Seja como for, desprovido da coragem como sempre, minhas pernas me arrastaram até a minha mesa. Tudo parecia normal, mesmo que normalidade seja algo subjetivo. Emerson, um dos que haviam enaltecido a jovialidade da Laura, se aproximou.

— Júlio, esse processo está com você?

Devo ter feito cara de esquisito, pois o meu colega deu dois passos para trás.

— Tu tá legal, Júlio?

— Tô.

Ainda ressabiado, mas decidido a obter a tal informação, ele insistiu.

— Veja se esse processo tá aí com você, por favor.

Depois de breve pesquisa, constatei que sim e, então, o entreguei ao sujeito. No entanto, talvez para demonstrar camaradagem ou algo do tipo, pisei em um campo desconhecido.

— E o nosso Vascão?

— Tá maluco, Júlio? Sou Fluminense!

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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