De fumante a meliante
Os mais iguais do condomínio extremo Sul
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A Síndica Sem Noção, já esteve no Café Literário Notibras algumas vezes. Foi retratada defendendo o zelador que chutou uma idosa, na casinha do lixo, e aprontou tantas outras, no Condomínio Extremo Sul.
Vai que, dessa vez, legislou, no elevador, que é proibido fumar em qualquer dependência do condomínio. Parece que entendeu que pode coibir, banir ou excluir todo e qualquer fumante. No entanto, os Mais Iguais do Condomínio Extremo Sul não conseguiram forjar provas contra o “meliante”, digo, fumante. Ficaram diante do dilema: como fotografar ou printar fumaça?
Em consequência do aparente fracasso contra a cessação da validade da Constituição Federal nos domínios condominiais, o grupo de vizinhos no whatsapp teve assunto para “diálogos” que assim se passaram:
– Venho novamente trazer a questão do fedor de CIGARRO! Cheguei em casa agora e meu quarto estava fedendo a CIGARRO. Como deixei a janela aberta pra ventilar, o cheiro entrou.
Infelizmente ainda tem criaturas FUMANDO dentro do condomínio e o odor está entrando cada vez mais em minha casa. A gente não merece ficar convivendo com isso! – esbravejou a Moradora Um.
É uma falta de respeito e precisamos resolver logo! Dia desses, também tive que fechar minhas janelas por conta do cheiro forte que entrava. – ecoou a Moradora Dois.
Não fumo, mas tenho uma dúvida: se eu fosse fumante não poderia fumar dentro da minha própria casa? Haveria alguma solução, além de eu parar de fumar? – ponderou a empática Moradora Três.
Eu acho que a pessoa tem que fumar na casa dela, mas com as janelas fechadas, já que os não fumantes não suportam o cheiro. – determinou o Morador Quatro.
– E se a pessoa for asmática? Se tiver enfisema pulmonar? Manter as janelas não pode ser prejudicial? – ponderou a Moradora Três.
– Mas aí você está defendendo gente que não faz parte dos nossos. Não tem nossos hábitos, nem nossa religião. Não faz parte do povo prometido – esbravejou a Moradora Um.
– Pera lá! Não fumo, sou contra os fumantes do prédio, mas sou espírita. Não venha com proselitismo religioso pra cima de mim. – rebateu a Moradora Dois.
– Não sou neopentecostal e nem espírita. E gostaria de saber o que fumar tem a ver com religião.- declinou o Morador Quatro.
– Estamos num impasse e manter as janelas da alma fechadas pode ser prejudicial. – ponderou a Moradora Três.
– Tudo culpa sua, Moradora Três. Nosso grupo tinha uma ideia clara e você tumultuou. Vamos dar queixa de você pra Síndica. Aguarde! – disseram em coro os moradores Um, Dois e Quatro.
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Edna Domenica é autora do texto “A síndica sem noção” publicada pelo Café Literário de Notibras que assim o identifica: “Dissimulada, reacionária, usa e abusa sem pagar nada” e de ” Sena Dora” ou “A volta da síndica sem noção, agora que prenderam o capitão”.
É também coautora de “Rapsódia da Rua da Mooca”, livro físico escrito por Edna Domenica, Eduardo Martínez, Gilberto Motta, Marlene Xavier Nobre e Rosilene Souza. (Tão Livros, 2026).