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MAIS UM TORRESMO

PARTE 1 — TELÊ, O SABIÁ DO MÉIER

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Telésforo. Meu sogro. Não houve botafoguense mais fanático que ele. Carioca do Méier, gente boa demais. Trabalhador incansável. Desde os 12 anos de idade na fábrica de açúcar. Não havia dia em que ele não se oferecesse para fazer hora extra. Por vezes, até sem receber. Queria apenas estar na fábrica.

Ficava desassossegado em casa. Tinha de fazer algo. No fim de semana, arranjava alguma coisa em que gastar o tempo. Sempre havia um vizinho com problema no encanamento ou na elétrica da casa. Virar uma laje no domingo, antes de um churrasquinho, era praxe. Carro, então?! Não tinha um que meu sogro não conhecesse. E bem. Em todo conserto de garagem, nos fins de semana, estava metido.

Virou lenda entre os vizinhos do bairro. Não havia problema de casa alheia para o qual Telésforo não fosse chamado, fosse para ajudar, orientar ou fazer. De graça, para todo mundo, ele era sempre pródigo em distribuir seus préstimos e sua constante simpatia. Em troca, amizades, convites para um almoço, uma cervejinha, uma boa conversa. Na vizinhança, era o Telê, ou Sabiá.

Correndo para lá e para cá, dia de semana, fim de semana e feriado, meu sogro era daquelas pessoas de quem se diz: quer se esconder dele? Vá para sua casa.

O problema é que, vindo a idade, a saúde foi se deteriorando. Não aguentava mais os “corres”, como ele chamava a incansável atividade de se doar no que quer que fosse. Assim, foi substituindo as horas do trabalho pelas horas no botequim. Abusando da cerveja e daquele torresmo de que gostava, e que só encontrava no Bar da Caçadora.

“Esse tá no jeito, hein. Pururuca!”

Nessa toada, enfrentou diabetes, gota, colesterol. E enfisema. Fumava muito. Acendia um cigarro atrás do outro.

Levando essa vida, viveu e morreu. Pobre. Feliz, eu achava, como pôde.

Mas vou retroceder um pouco, dizendo como o conheci.

A necessidade familiar empurrou-me para o trabalho muito cedo. Fui trocador de ônibus, contínuo e auxiliar de escritório. Neste último emprego, tive a chance de estudar e formei-me contador. Exerci a função no próprio escritório e, depois, seguindo uma melhor oportunidade, fui trabalhar na fábrica de açúcar.

Lá conheci Telê.

Certa feita, querendo me enturmar com os veteranos da fábrica, que sempre admirava em suas conversas e troças na hora do almoço, corri para o botequim onde se encontravam após o expediente. Telê foi o primeiro a se acercar de mim. Ficava me provocando.

“Gente de escritório misturada aqui com esta ralé?”

Eu achava graça. Nós ríamos, e a conversa fluía.

Nesse tempo, Telê colocava o botequim na agenda apenas às quartas e sextas-feiras, após o expediente. Nas quartas porque, depois do trabalho na fábrica, havia um futebolzinho sempre seguido de uma rodada. Na sexta, porque era de praxe. Lei universal dos homens.

Fiquei órfão de pai aos 8 anos, e acho que encontrei no velho um segundo pai. Não sabia que o destino reservava a ele o papel de meu sogro. Seguimos convivendo, fortalecendo nossos laços. Soube de sua vida. Casado havia 25 anos, tinha uma filha de 17. Morava pelo subúrbio e era muito querido em sua vizinhança. Fanático pelo Botafogo, não perdia a oportunidade de ir ao Maracanã, e fui com ele várias vezes. Não entendia, nem gostava de futebol, mas ia para acompanhá-lo.

Naqueles tempos, tinha um radinho de pilha que eu sempre levava em minha pasta de trabalho. No descanso após o almoço, eu, “gente de escritório”, me aproximava de meus amigos operários e punha o radinho para tocar algo ou trazer umas notícias. E assim íamos seguindo aquelas tardes. O céu azul sobre o grande pátio da fábrica, os seus ruídos característicos, a cidade daquele tempo.

Um dia, provoquei-o, brincando:

“Quero ir um dia à sua casa, perguntar se, na vizinhança, você é tão querido assim.”

“Garoto, lá não é bagunça não. Tá pensando o quê? Vou te levar lá pra ver se tu aguenta meus corres. Mas vai ter que me acompanhar em tudo o que eu faço.”

“Vai ter almoço em sua casa?”

Telê redarguia, reticente.

“Vamos ver, vamos ver…”

O dia nunca chegava, e nossa intimidade ia crescendo.

Num fim de ano, um grande grupo da fábrica combinou, com apoio irrestrito da diretoria, realizar uma festa no Clube dos Sargentos. Fiz parte da comissão de organização e convidei Telê para me ajudar. Se não o chamasse, certamente ficaria ressentido. Perguntei se ele traria a família à festa.

“Talvez minha filha. A patroa não gosta muito de social, não. Prefere ficar em casa.”

Sempre fora curioso em conhecer a família de meu amigo. Ele não cansava de elogiar a filha. Que era morena, olhos esverdeados, uma graça. Havia sido educada de um jeito primoroso, sabia tudo de casa, de família. Nunca tivera namorado, e Telê a queria deixar arranjada, como se dizia então. De sua esposa, quase nunca falava. Apenas poucas remissões. Imaginava que devia ser senhora boa. Afinal, um marido como Telê… Ser humano de primeiríssima qualidade, tão querido por todos!

Numa sexta-feira daquelas, nas quais o encontro do botequim era usual, sentávamos à mesa Telê, um encarregado de expedição chamado Garcia, o vigia Antunes, o motorista Franco e eu, o mais novo entre os veteranos trabalhadores da fábrica de açúcar.

Lá pelas tantas, saiu uma conversa sobre filhos e netos. Garcia e Antunes já eram avôs. Franco, viúvo, vivia com um casal de filhos gêmeos. E Telê, mais uma vez, ressaltou as qualidades infindáveis da filha. Todos mostraram uma foto de seus filhos e netos que carregavam na carteira. Eram, em sua maioria, aqueles 3×4 mal acabados, em que a pessoa nunca era revelada por um bom ângulo. Franco e Telê, no entanto, tinham retratos maiores. O motorista mostrou-nos o par de filhos. Loirinhos, olhos claros, italianos de pai e mãe, de uns 12 ou 14 anos. Telê, em princípio, resistiu.

“Que mostrar foto de filha o quê, rapaz? Isto aqui não é bagunça não!”

Todos rimos e fizemos troça.

“Pode mostrar, ninguém vai tirar pedaço não!”

“Aqui todo mundo respeita.”

Fingindo resistência, Telê passou a foto a Garcia, que estava do seu lado direito. Este abriu um belo sorriso e, em seguida, passou a foto a Franco, que a entregou a Antunes. Ambos se detiveram juntos em olhar de novo, demoradamente, a fotografia. Telê bradou:

“Não babem não, seus velhotes. A menina é papa fina. Vão gastar a fotografia.”

Enfim, a foto chegou às minhas mãos. Olhei de relance, quase desinteressadamente. Mas o desinteresse durou somente uma fração de segundos. Depois, fixei o olhar. Nunca havia imaginado… A menina era um escândalo. Linda. As descrições do pai em nada lhe faziam justiça. Morena, olhar expressivo, cabelo na altura dos ombros, olhando de lado com um adorno na cabeça que acompanhava o tecido do vestido. A foto era em preto e branco, mas eu imaginei o vestido amarelo.

Nunca me ocorrera perguntar o nome. Telê o informou:

“Esta é Verônica, garoto. Minha filha. O que foi? Que cara é essa? Acha que pobre não pode ter filha bonita?”

Seguimos até o final daquele ano, com a rotina de sempre. Com uma diferença: não tirava Verônica da cabeça. Perguntava sempre por ela, e Telê dava-me a rotina da linda moça de quem, à distância, começava a formar uma ideia da personalidade e dos gostos.

………
(…) continua amanhã, no Café Literário.

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