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MAIS UM TORRESMO

PARTE 2 — MISS DOCINHO

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Cinco de dezembro. O dia da reunião festiva dos funcionários da fábrica. Um sábado radioso amanheceu sobre o Rio de Janeiro. Singrando os subúrbios, de todos os lados da cidade, um grande número de trabalhadores, acompanhados de suas famílias, seguiu para o Clube dos Sargentos. Às dez horas da manhã, já havia movimento. Gente na quadra, crianças na piscina, senhoras conversando sob guarda-sóis em volta.

O cardápio era variado. Carnes, molhos, saladas, massas, sobremesas. Tudo a cargo da organização, com material ofertado pela alta direção da fábrica. Esperava-se, aliás, a presença dos diretores, o que se confirmou mais tarde. Discursos emocionados, distribuição de placas de homenagem, a eleição do funcionário do ano, faturada pelo Manequinho, um jovem colega do arquivo, e, de brincadeira, foi organizado de última hora o concurso de Miss Docinho.

Em meio a muitas risadas e aplausos, alguém deu a ideia, que se propagou, e as candidatas surgiram entre as esposas e filhas dos funcionários, e mesmo algumas trabalhadoras. Um dos diretores da fábrica, a quem haviam servido umas caipirinhas e que já estava bem animado, ofereceu do próprio bolso 500 cruzeiros de prêmio à eleita. Júri formado, música soando por um alto-falante, apresentaram-se as concorrentes.

Entre elas, Verônica, que havia chegado pelas 11 horas da manhã com seu pai. Próximo à piscina, ouvi Telê me chamando:

“Ô garoto! Cadê você? Chega aí, bacana, que hoje eu vim bem acompanhado. Isso aqui não é bagunça não!”

Foi a primeira vez que vi Verônica. Dentro de um vestido florido, seus braços e pernas eram um complemento à natureza. Com olhos de uma cor intraduzível, longe da classificação dada por seu pai, era simples nos gestos, muito educada, e tinha uma voz suave, com um tom um pouco rouco. Tremia quando a fui cumprimentar, mas acho que não transpareci o nervosismo. Achei-me tolo por pensar estar apaixonado por uma menina de quem só ouvira falar por seu pai. Mas, se não estivesse apaixonado até então, bastaria aquele primeiro contato.

Não sei quanto tempo peguei sua mão, não lembro exatamente que palavras trocamos naquele momento. Ela sorriu para mim, e seu sorriso me pareceu familiar, como se já a conhecesse havia muito tempo. Um doce. Doce de pessoa.

Sem qualquer injustiça com as demais concorrentes, Verônica tirou o primeiro lugar no concurso organizado de brincadeira, e foi a Miss Docinho. O diretor entregou-lhe os 500 cruzeiros sob aplausos. Todos cumprimentavam Telê.

“Que injustiça, hein? Um homem feio desses com uma filha tão bonita”, brincava um dos colegas operários.

“Impossível ser tua filha, seu moço. Isso aí foi troca na maternidade”, provocava outro.

Tudo no clima de camaradagem que imperava na fábrica. Amizades de longos anos. Uma família, realmente.

Como já me havia avisado, Telê chegara um pouco mais tarde à confraternização, porque estaria comigo até o final no Clube dos Sargentos, ajudando-me, e a outros da equipe, a tudo deixar organizado conforme nos propusemos. E assim foi feito. Embora estivéssemos cansados, houvéssemos aproveitado o dia, comido e bebido bem, saímos do local quando já passava das 8 horas da noite.

Acompanhei meu amigo e sua filha até o ponto de ônibus. Ameaçava uma chuva daquelas, dos verões do Rio de Janeiro, com relâmpagos no céu. Como a condução se demorava, propus pegarmos um táxi até o Méier e, dali, seguiria para o meu destino.

Em princípio, Telê recusou. Disse que ficaria caro demais, que o ônibus já chegava, mas, diante das ameaças do tempo, cedeu. Entramos num Volkswagen de quatro portas, já na bandeira 2.

Em todos os momentos que pude, conversei com Verônica, puxei assunto, procurei ser simpático. Devo ter agradado, porque ela retribuía a atenção e me sorria. Telê depois me confessaria que ficara muito feliz com esse entrosamento. Tanto que, ao ingressarmos no táxi, deu um jeito de nos deixar sentar juntos no banco de trás, enquanto ele foi no da frente, com o motorista. No trajeto, conversamos amenidades e mais rimos. A simpatia de minha Miss Docinho era interminável, mesmo confessando-se cansada após o dia que tivemos.

No caminho, pegamos uma chuva torrencial. O trânsito complicou-se devido ao alagamento da rua que beirava a linha do trem, e, assim, demoramos o triplo do tempo que separava, de carro, o Clube da casa de Telê.

Lá chegando, passou-me pela cabeça que seria convidado a entrar, fosse para continuar a conversa ou tomar um café. A princípio, recusaria, dizendo que Telê precisava descansar, que eu não queria incomodar, mas, depois de alguma insistência, aceitaria e poderia ficar mais tempo com Verônica.

Fiquei, no entanto, desapontado quando, abrindo a porta de trás do carro, Telê me agradeceu e fez um “até logo” com a mão. Tive tempo apenas de trocar um rápido olhar com Verônica. Sorrimos ainda um para o outro, e o taxista pôs-se a caminho. Terminei aquela noite deitado em minha cama, próxima à janela do quarto, pensando estar perdidamente apaixonado por aquela garota.

O domingo seguiu sonolento, angustiante, sob o calor do Rio de Janeiro. Enfrentei uma boa hora e meia de ônibus e fui até a praia. Apesar de cercado por uma multidão, estava sozinho. E meu pensamento encontrava-se num subúrbio a quilômetros de distância dali. Rodava sempre em volta do mesmo assunto. Verônica, obviamente. Mas também a atitude estranha de Telê. Não que ele fosse obrigado a me convidar para entrar, mas, se sempre me demonstrara amizade e afeto, era de se esperar que ao menos me chamasse. Mesmo que fosse para eu recusar o convite e nos despedirmos. Mas nada disso fez. Apenas um gesto seco com a mão. “Até logo”. E mais nada. Teria eu feito algo de errado? Alguma transformação se passara na cabeça dele em tão pouco espaço de tempo?

Iria analisar sua atitude na fábrica, segunda-feira, mas a ansiedade me consumia.

Ao final do domingo, veio uma chuva pior do que aquela de sábado, mas eu já estava em casa, torcendo para vir logo o sono, pois no dia seguinte acordaria e correria para a fábrica onde, com certeza, Telê já se encontraria. Mesmo sob o risco de incomodá-lo em suas tarefas, adiantaria nosso encontro, que usualmente se dava apenas na hora do almoço, para o início do turno de trabalho, e iria até a área onde ele cumpria sua função apenas para medi-lo e observá-lo.

Nem precisei fazer isso. Chegando à fábrica na segunda-feira de manhã, ele me esperava na porta. Cumprimentou-me efusivamente. Disse que Verônica havia gostado muito de mim, o que o deixava bastante feliz. Queria promover outro encontro de nós dois, punha fé que haveria namoro. Fiquei desconcertado, em princípio, com o entusiasmo do velho. Mas embarquei em sua confiança, uma vez que, agora, nós dois queríamos a mesma coisa. Telê e eu estávamos mais amigos do que nunca.

Dali para frente, os dias foram pontuados por contatos com Verônica. Quase todos os domingos nós passeávamos. Durante os dias da semana, trocávamos cartas. Algumas até com a intermediação do próprio Telê. Em dois meses e meio, estávamos namorando seriamente.

Mas ainda havia uma curiosidade: eu não conhecera minha sogra, dona Helade.

Não havia iniciativa, nem do sogro, nem de Verônica, de promover o encontro. Eu tocava no assunto, ambos desconversavam.

“Que diabos!”, reclamei um dia com Telê. Baseado na confiança e intimidade que tínhamos, continuei:

“Parece até que vocês estão me escondendo alguma coisa. Será que, sem me conhecer, a sogra já tem algo contra mim?”

“Não é isso não, meu garoto. É que nunca lhe contei… mas a patroa é uma pessoa meio difícil, um tanto exigente com os outros. Ela custa a tomar confiança e simpatizar, sabe como é? Então, Verônica e eu estamos preparando o terreno. Mas vamos todos almoçar juntos, em breve. Palavra de honra. Aqui não é bagunça não!”

Diante dessa explicação de Telê, não sabia se sentia receio ou medo mesmo. Já contava com o amor de Verônica e com a amizade incondicional de meu sogro. Não haveria de conquistar a sogra? Certamente que sim. Era só questão de prepararem a oportunidade.

Pois, um dia, a oportunidade chegou.

Telê acercou-se de mim numa de nossas passagens pelo bar às sextas-feiras e disse:

“Aguardamos você para o almoço amanhã. Pode chegar meio-dia?”

“Claro! Dia de conhecer a sogra? O que você me diz dela?”

“Amanhã você verá. Mas não esquenta a cabeça. Já falamos muito bem de você.”

No dia seguinte, com flores nas mãos para ofertar à namorada e à sogra, estava no portão da casa do Méier pouco antes da hora combinada. Telê me recebeu com um largo abraço. Convidou-me a tomar uma cerveja sob a sombra de uma grande mangueira no quintal, enquanto Verônica e sua mãe não chegavam. Tinham deixado o almoço adiantado e, depois, ido juntas à casa de uma vizinha que passava por severas dificuldades de saúde após um parto complicado, tendo regressado à casa naquele dia. Aguardaríamos um pouco. Elas já estariam ali.

Houve tempo para uma conversa e umas três cervejas. O momento foi propício, pois estava nervoso e consegui relaxar um pouco. Mas subsistia a dúvida: por que tanto mistério em torno da sogra? Haveria de me fuzilar com os olhos?

Finalmente, as mulheres da casa chegaram ao cabo de uma hora, mais ou menos. Verônica linda e radiante. A cada dia a amava mais. Atrás dela, a mãe. Que figura!

Seria difícil relatar a primeira impressão que tive de dona Helade. Seu físico e sua roupa preta pareciam não combinar com o tempo em que estávamos, apesar do corte contemporâneo do vestido. Talvez fosse algo no penteado e nos brincos que usava. Mas a imagem remetia ao tempo dos retratos em forma de medalhão, com vidro bombê.

Ela não tinha cara, mas uma catadura. Era feia mais por antipatia do que pelo formato do rosto. Um cabelo estranho, com fios soltos na testa, grudados no suor. Mãos brutas, com gestos duros. Já chegou reclamando algo com Telê e Verônica que, chocado com aquela visão, sequer entendi direito.

Mas o que espantava mais era o buço. O buço de dona Helade dava-lhe uma aparência cômica e suja ao mesmo tempo. Era formado por fios grossos, que quase escondiam a falta do lábio superior, de tão delgado. A voz tinha um quê de autoritária, e ela ralhava por qualquer coisa.

“Ah, então é o senhor que trabalha com Telésforo? Que conhece minha filha? Muito bem, esteja à vontade.”

Senti falta de ela falar um “prazer em conhecê-lo”. Ela preferiu ser dura e antipática. O tempo todo. Sabe aquela pessoa que nunca se esforça para agradar? Era o caso.

Ao menos o almoço foi bom, preparado por ela e Verônica. Cerveja gelada à vontade, que Telê me servia tão logo notava meu copo quase vazio.

Rimos e conversamos sentados à mesa da cozinha. Corria um vento agradável por ali, amenizando o calor suburbano. E dona Helade, o tempo todo, calada. Fez poucas intervenções, mal participou da conversa.

As poucas vezes em que abriu a boca foi para reclamações.

Reclamou de uma vizinha que havia comprado um galo, reclamou do preço dos gêneros alimentícios, reclamou do calor e da poça d’água em frente ao ponto de ônibus. O pior foi a forma com que se dirigia à filha e a Telê:

“Você não faz nada direito.”

“Meu trabalho nessa casa só aumenta.”

“Já estou velha, queria estar descansando. E sou a gata borralheira. Sempre fui.”

A mulher sofria de um mau humor crônico. Nada a deixava satisfeita. Era craque em ver defeitos nas pessoas e apontá-los cruamente. Ali, naquele primeiro encontro, vi apenas a ponta do iceberg. Depois vi que era pior, muito pior do que aquilo.

Não obstante, olhava para Verônica e todas as nuvens daquele céu de tempestade se dissipavam. Dali em diante, nunca mais ficaria confortável no mesmo ambiente que dona Helade, e ela seria minha sogra para o resto da vida. Parece que a antipatia foi mútua. Não que ela tenha começado a implicar comigo. Ao menos não começou logo de cara. Mas, simpática… jamais foi.

………
(…) continua amanhã, no Café Literário.

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