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MAIS UM TORRESMO

PARTE 4 — MAIS UM TORRESMO

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Estávamos no ano de 1976 quando, com o meu desempenho profissional, eu já havia conquistado muitas coisas.

Pouco depois da morte de Telê, concordei que, sozinha em casa, dona Helade ficaria muito triste, e a companhia da filha lhe faria diferença. Assenti que viesse morar conosco, porque tínhamos mais quartos em casa, apesar de não ser própria. Eu não sabia, mas estava deixando o mal entrar, e ele se faria hóspede de nossa casa.

Começamos a planejar, contudo, a venda da casa de Telê e dona Helade, uma vez concluído o inventário, para dar entrada em um apartamento. Tijuca talvez.

Surpreendentemente, a vida nos sorriu, e compramos um apartamento em Copacabana.

Três quartos, vaga de garagem, a duas quadras da praia. Uma lindeza.

A vida poderia ser perfeita. E era, quando Verônica e eu nos fechávamos em nosso quarto. Ou quando dona Helade, saudosa dos subúrbios, ia visitar umas parentas. Geralmente aos domingos, em que eu aproveitava o sol nas areias com minha morena, linda como sempre, com seu corpo de escultura e sua pele cheirosa e suave. O cheiro de Verônica… Era o mesmo que sentira da primeira vez, no pescoço, nos cabelos. Nesses momentos, eu era realmente feliz.

Saudades? Sim, tinha saudades do velho Telê, do seu jeito leve e divertido de encarar a vida. Das conversas com os veteranos da fábrica. A maturidade chegava, e eu passei por algumas mudanças. Não fiquei “mascarado”, como alguns me acusaram, mas encontros em botequins suburbanos já não me davam prazer, talvez mais pela lembrança que me traziam do sogro morto. Além disso, as obrigações profissionais eram cada dia maiores.

Eu já estava na posição de dar os 500 cruzeiros do meu bolso para premiar a Miss Docinho no encontro dos funcionários.

Íamos seguindo pela década de 80. Quase em seu final, percebi que dona Helade havia tomado espaço demais dentro de minha casa. Os filhos não vieram, e pensei que, se eles tivessem vindo, haveria uma divisão de poder entre mãe e filha. Ou que nossa prole amolecesse o coração da sogra-avó e ela ficasse mais humana.

Ao contrário, a cada dia era mais amarga, mais rabugenta, mais resmungona, mais implicante.

Dava-me ordens dentro de minha própria casa, o tempo todo. Mudava objetos de lugar, arvorava-se em dar ordens à empregada, invariavelmente contrárias às minhas ou às de Verônica. Eu preferia ignorar certas coisas e manter um pouco da minha cabeça sã, não afetar a paz do meu lar e do meu casamento, mas, confesso, todo dia era difícil conviver com aquele monumento ao pessimismo.

As intervenções inconvenientes durante reuniões com amigos eram um caso à parte. Eu procurava levar no bom humor, mas sentia vergonha dos absurdos e grosserias que minha sogra fazia na frente dos meus amigos.

Um dia, durante um aniversário de Verônica comemorado junto de poucos casais amigos íntimos, dona Helade, no sofá, criticava a comida, a bebida, a altura das conversas e o volume da música.

Noutra ocasião, íamos viajar durante um fim de semana seguido de feriado na segunda-feira e, com tudo acertado e combinado, malas perto da porta, dona Helade disse que iria morrer se ficasse sozinha em casa, e que tinha medo de só ser encontrada, já em decomposição, quando a empregada chegasse na terça-feira. Mas também se recusava terminantemente a ir, porque não queria “atrapalhar”. Logo ela, que não tinha pudores em provocar incômodos.

Resultado: brigamos feio, Verônica e eu, pela primeira vez desde que nos havíamos conhecido, porque até ali eu tudo tolerava e aceitava, e eu fui viajar sozinho.

Ao menos o Fusca 70 ainda era o companheiro constante e fiel.

Quando regressei dessa viagem, alguma coisa havia mudado entre Verônica e eu. Dona Helade havia tomado um espaço definitivo dentro de minha casa e entre o casal. Uma transformação mais percebida do que declarada havia se processado ali em poucos dias. Minha mulher, que sempre fora toda amores e reconhecimento pelo bem que eu fizera ao pai dela e pela tolerância que demonstrava à sua mãe, que ela sabia difícil, passou a estar ensimesmada e distante. Indiferente mesmo.

Eram mais de dez anos de casamento, os filhos não vieram, mas, de minha parte, a chama ainda estava acesa. Verônica, porém, era distante, fria. Raramente ficávamos próximos, curtindo as intimidades de um casal. Os programas em comum não interessavam mais. Ela não aceitava mais viajar, nem se encontrar com nossos amigos.

Creio que, em seu íntimo, minha sogra festejava, porque, afinal de contas, sempre desconfiei que ela queria exatamente isso: a filha devotada inteiramente aos seus cuidados, aos seus problemas, às suas frustrações. Eu era um concorrente. Quase um intruso, agora, em minha própria casa.

Percebi que o futuro havia chegado. Aqueles sonhos que eu alimentava aos vinte e poucos anos concretizaram-se parcialmente, e agora estavam ruindo estrondosamente. Tentamos conversar várias vezes, mas sempre terminávamos brigando. Eu era chamado de egoísta quando tentava inserir na conversa o espaço que dona Helade havia tomado em nossas vidas, na nossa casa, na nossa rotina.

Com os anos, vieram também as contas pelas indisciplinas que cometi na comida e na bebida. Ostentava visível barriga, tinha algumas dores nas articulações, há muito substituíra atividades pelo severo trabalho na fábrica de açúcar, sempre sentado num escritório. Não era mais o rapaz que olhara a fotografia de Verônica na mesa do botequim. Talvez, nisso, ela também tivesse razão. O tempo havia cobrado de todos nós.

Carros passaram por minha vida. O Fusca se foi, veio um Opala e, depois do Opala, um Del Rey novinho em folha.

Vieram também a pressão alta, o colesterol, a arritmia cardíaca. Minha saúde se transformou numa bomba-relógio. Mas eu seguia em frente.

Já Verônica… Esta era caso encerrado. Não éramos mais um casal de fato. O casamento dela, agora, era com dona Helade, que tinha uma saúde de aço e piorara em todos os seus aspectos negativos na personalidade.

Minha vida era literalmente insuportável.

Uma transformação muito discreta e vagarosa, quase imperceptível no dia a dia, operou-se em Verônica. Eu percebi que, ao longo dos últimos anos, ela havia mimetizado o feitio e a aparência de sua mãe.

Acabou-se o viço da mocidade. Os cabelos eram agora sempre presos, ela ficou matrona e até a modulação agradável de sua voz mudou, pois agora só falava resmungando. Amarga, triste, reclamando dos filhos que não vieram, das saudades do passado inatingível, do tempo que perdeu sendo dona de casa quando, a esta altura, podia ser independente e trabalhar fora para não ter que me pedir as coisas… Logo eu, que sempre dei a ela tudo que pediu, com alegria e generosidade.

As últimas consultas de rotina haviam sido desanimadoras. Eu poderia ter de fazer uma cirurgia cardíaca para corrigir uma grave obstrução arterial. Tinha medo do que poderia me acontecer pois, mal ou bem, não queria deixar Verônica desamparada em nada.

Contei o caso a ela. Ouvi de volta:

“Você é o culpado. Cavou sua própria ruína trabalhando demais, bebendo muito e sendo um tirano aqui dentro de casa. Pessoa ruim.”

Ela falou isso me fitando nos olhos com uma maldade que eu nunca tinha visto nela. Fiquei espantado, aterrado mesmo.

E foi aí que percebi a transformação completa de Verônica numa síntese de dona Helade.

As características que ela um dia tivera de Telê estavam irremediavelmente desaparecidas. Para sempre.

Um dia, propus a ela que entendêssemos a realidade: todo casamento tem crises, os anos desgastam a relação, havia visto isso num programa de tevê. Mas havia ainda uma chance, éramos maduros, a história que havíamos construído até aqui, ao menos de fidelidade e honestidade, fazia ainda valer a pena, e precisávamos nos dar uma nova oportunidade.

Preparar uma casinha independente para dona Helade, viajar mais, sair para nos divertirmos… Uma viagem à Europa.

À medida que eu falava, ela me fitava com olhos cruéis, fuzilantes, e eu percebia que, no lugar da Verônica que primeiro vi no retrato sacado da carteira de Telê numa mesa de bar, havia agora uma senhora com um buço.

Sim. O buço estava lá, sobre o lábio superior, que tinha rugas e havia afinado tanto que mal se via. Era como se Verônica e Helade se fundissem numa só pessoa. E os cabelos… Os cabelos presos de forma estranha atrás da cabeça, os fios displicentes sobre a testa onde colavam, empapada que estava a fronte de suor e ódio por minha proposta.

Tudo se encaixou. Telê era, na realidade, um grande infeliz. Eu entendi e o absolvi. Aquele desassossego dos “corres” que fazia, as horas extras, a preferência por estar fora de casa, tudo era proposital. Era para ficar longe daquele ser de quem Verônica era, agora, imagem e semelhança.

Não percebi essa transformação, mas ela estava ali, completa.

Meu coração doeu de saudade do meu sogro, e me senti péssimo por não ter entendido seus recados, por ter me entregado tanto à influência de dona Helade e por haver ficado tão chateado com ele quando passou a desprezar a própria saúde, entregando-se a uma morte inevitável por diversos abusos.

Imediatamente, desci de meu apartamento, acomodei-me no luxuoso interior do Del Rey, saí de Copacabana, acessei a Princesa Isabel, segui para o Aterro, variei por Pinheiro Machado, saí na Presidente Vargas e segui direto para o Méier.

Lá, depois de vários anos sem retornar ao subúrbio, cheguei à esquina onde ainda funcionava, mais pé-sujo do que nunca, o Bar da Caçadora. O aspecto ainda era de 10, 20 anos antes, com mesas e cadeiras rotas, um balcão de madeira, aquelas geladeiras antiquíssimas mas em pleno funcionamento.

O balconista parecia o mesmo de anos atrás. Não lhe recordava o nome, mas perguntei:

“Você lembra do Telê Sabiá?”

“Claro! Soube que ele morreu há muitos anos. E a senhora dele mudou daqui. O genro dele também sumiu…”

“É, o genro dele morreu”, respondi, sabendo que eu não seria reconhecido.

Em seguida, consciente dos riscos e querendo assumi-los deliberadamente, ordenei:

“Cerveja gelada, uma pinga pra esquentar e um torresmo. Daqueles bem gordurosos.”

Deliciei-me com aquele antepasto infame e, em seguida, repeti a dose.

“Mais um torresmo!”

“É pra já, patrão.”

………
FIM

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