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Alguém vai dançar

Partidos tropeçam na cláusula de barreira e redesenham alianças

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Autor/Imagem:
Gilmar López, Especial para Notibras - Foto de Arquivo

A arquitetura democrática brasileira, moldada pela Constituição de 1988, repousa sobre pilares como o pluralismo político, a cidadania e a participação popular. No entanto, quando esses fundamentos começam a ser tensionados por mecanismos que, embora legais, produzem efeitos restritivos na prática, o sistema passa a emitir sinais de desgaste. É exatamente o que ocorre no Distrito Federal – como de resto em todo o País – diante dos impactos da chamada cláusula de desempenho, instituída pela Emenda Constitucional nº 97/2017 com o objetivo declarado de enxugar o número de partidos e conferir maior estabilidade à governabilidade.

Na teoria, trata-se de um remédio contra a fragmentação excessiva. Na prática, em Brasília, o que se observa é um redesenho silencioso, porém profundo, do tabuleiro eleitoral. A cláusula de barreira atua como um funil que estreita o acesso de partidos menores a recursos públicos e ao tempo de propaganda, tornando-os coadjuvantes em uma disputa cada vez mais cara, profissionalizada e concentrada. O resultado é um pluralismo comprimido, mais retórico do que efetivo, com menos vozes, menos diversidade ideológica e um debate público progressivamente homogêneo.

No papel, qualquer cidadão pode disputar uma eleição. Na prática, o Distrito Federal impõe filtros cada vez mais rigorosos. Sem estrutura financeira e sem visibilidade, partidos menores enfrentam dificuldades reais para lançar candidaturas competitivas, o que acaba por restringir, ainda que de forma indireta, o direito de ser votado. O eleitor brasiliense, por sua vez, passa a escolher entre opções cada vez mais limitadas, quase sempre orbitando nomes já conhecidos, reciclados ou reposicionados conforme a conveniência eleitoral do momento.

A desigualdade entre as legendas, que deveria ser apenas circunstancial, ganha contornos estruturais. As grandes siglas, com acesso privilegiado a recursos e exposição, ampliam sua presença nas ruas, nas redes e nos meios de comunicação, enquanto as menores lutam para sobreviver. Forma-se um ciclo previsível e autoalimentado: mais votos geram mais recursos, que ampliam a estrutura, que por sua vez garantem mais votos. Do outro lado, partidos emergentes permanecem presos a uma espécie de periferia política, sem meios reais de romper a barreira de entrada.

Nos bastidores da política local, a consequência mais visível desse processo é a intensificação de fusões e incorporações. Siglas desaparecem, são absorvidas ou simplesmente deixam de existir como força autônoma. O cardápio eleitoral encolhe, e com ele diminui também o espaço para novas ideias e novos protagonistas. Em um sistema que exige filiação partidária como condição de elegibilidade, menos partidos significam, na prática, menos portas de entrada para quem deseja ingressar na vida pública.

Com menos legendas disponíveis, a disputa interna se acirra. As vagas para candidaturas, especialmente nas eleições proporcionais, tornam-se mais disputadas, e o acesso passa a depender não apenas de vontade política, mas de capital eleitoral, articulação interna e, muitas vezes, de apadrinhamento. Nesse ambiente, partidos priorizam nomes já testados nas urnas, detentores de mandato ou figuras com forte exposição, reduzindo ainda mais o espaço para renovação.

O efeito acumulado desse processo é a concentração de poder. No Distrito Federal, isso se traduz em campanhas mais robustas, porém menos abertas, com poucos polos de influência controlando recursos, narrativas e alianças. A médio prazo, o risco é a consolidação de um sistema político próximo de um oligopólio partidário, no qual a competição se torna assimétrica, a diversidade se reduz e a alternância de poder se enfraquece.

É preciso reconhecer que a cláusula de desempenho não nasceu sem propósito. Seu objetivo de reduzir a fragmentação e combater partidos de fachada é legítimo. O problema reside no desequilíbrio entre intenção e efeito. No contexto do Distrito Federal, a busca por governabilidade começa a cobrar um preço alto demais: a compressão do pluralismo e a limitação prática do acesso à vida política.

Formalmente constitucional, a regra revela, na prática, efeitos que tensionam princípios fundamentais da democracia. Ao concentrar poder, restringir candidaturas e reduzir a diversidade política, o modelo vigente transforma Brasília em um laboratório vivo dessas contradições. Entre o discurso da eficiência e a realidade da exclusão silenciosa, o sistema político local vai se tornando mais fechado, mais seletivo e, sobretudo, mais distante do eleitor comum.

Se não houver ajustes ou revisões, o cenário que se desenha é o de uma democracia cada vez mais controlada por poucos, onde entrar no jogo político dependerá menos de representatividade e mais de pertencimento a estruturas já consolidadas. Em Brasília, onde o poder não apenas se exerce, mas se observa em cada movimento de bastidor, esse tipo de transformação dificilmente passará despercebido, mesmo que avance, como quase tudo por aqui, em silêncio.

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