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Brasil

Patrulhamento que odeia também deixa que morram

Mathuzalém Junior*

O tempo é o melhor professor do mundo. Mesmo que você não faça boas perguntas, ele lhe dará as melhores respostas. Aprendi a mensurar o tempo – sem questioná-lo – com meu velho e sábio avô. Também foi ele quem adiantou que chegaria o dia em que eu teria vontade de virar a ampulheta de ponta cabeça. Tive certeza disso quando fui apresentado aos geniais textos do médium Chico Xavier e descobri que “absolutamente nada é definitivo, inclusive a vida”. Tardiamente compreendi a inutilidade do orgulho, a tolice das disputas, a estupidez da ganância e a incoerência das mágoas.

Percebi que havia chegado o dia de a areia do tempo começar a mudar de lado quando fui obrigado por terceiros a denominar de afrodescendente um querido amigo que conheci negro na infância. Sorte minha que ele cresceu, ascendeu socialmente, virou um correto e honrado chefe de família e, como ele sempre sonhou nos bate-papos de esquina ou às mesas de botecos, morreu negro como as asas da graúna. Nunca o incomodou – nem à família – o adjetivo que, por vontade própria, incorporou ao nome de batismo. Jorge Luís Firmino da Silva ninguém conhecia. Jorge Negão foi amado por todos, principalmente pelas três filhas claras e lindas que não produziu, mas criou como se fossem suas.

Além da ideologia barata, ensinada pelos mestres de coisa nenhuma ou formatada durante encontros multivacionais ou em reuniões de autoajuda, hoje tudo é racismo, bullying, discriminação, indireta. Choram pelo cachorro maltratado, mas desejam que o homem seja esquartejado. Há sempre alguém do nosso lado nos patrulhando, dizendo o que podemos ou não dizer, lembrando o que pode ser ofensivo ou politicamente incorreto. A vontade é usar um vocábulo menos distinto, mas serei politicamente correto. Dane-se. Assim como eu, os da minha geração tiveram o que quiseram ou puderam, amaram tudo o que valia a pena ser amado e perderam apenas o que, no fundo, nunca foi nosso.

O que temos certeza é que nunca deixamos de tentar. Nem no período mais negro de nossa juventude – o da ditadura – éramos tão vigiados como agora. Nossa adjetivação era simplória, brincalhona e sem divisões. Todos tinham suas preferências políticas – se é que tinham -, e não se incomodavam com as dos outros. Sem ódio – claro ou velado -, conviviam na mesma tribo gordos, magros, feios, bonitos, negros, louros, ricos, pobres, héteros, entendidos – era assim que denominávamos os amigos e suas preferências sexuais – e desentendidos. Nunca fui chegado a apelidos jocosos. Por isso, abomino coxinhas, pão com mortadela, bolsominions ou gado. Somos apenas seres humanos, dispostos em raças, crenças, gêneros e classes variadas.

Respeitosamente, eita povo chato da gota (mais uma vez o vocábulo era outro). A maioria dos que inventaram uma nova forma de ser esqueceu que já usou neocid na cabeça com um pano enrolado para matar piolho. Essa turma também não lembra que procurava o hospital público mais próximo para tomar injeção de benzetacil quando o ranho escorria pelo nariz. Muitos daqueles que insistem em posar de bons samaritanos compravam e tomavam remédios sem receita médica. Nos subúrbios ou mesmo nas cidades médias de anos anteriores, quantos de nós nunca usou querosene para matar bicho-de-pé? Certamente poucos. E quando enchíamos o quarto de flitz e, não satisfeitos, acendíamos um “durma bem” da marca Sentinela para espantar mosquitos.

Difícil esquecer que, por recomendação da avó ou da vizinha idosa – às vezes nem tanto -, tomávamos café com duas gotas de creolina para matar os vermes. Não sei se eles morriam, mas o desinfetante de instalações pecuárias deve ter “limpado” muitos de nós. Éramos visitantes quase diários das benzedeiras, as quais procurávamos para curar cobreiros. Lembram que os bernes saíam após uma certeira aplicação de fita crepe com toucinho de porco? Era um santo remédio. Talvez usássemos por falta de alternativas. Hoje temos numerosas opções comprovadamente eficazes, mas alguns de nós – pode ser que não seja nenhum de nós – insistem em não tomar a vacina contra a Covid-19, seja ela chinesa, russa, indiana, inglesa ou norte-americana, do Dória, do Bolsonaro ou do raio que a parta.

Se preciso, tomo novamente goles de creolina, gasolina e tubaína. Sou capaz até de chupar umas balinhas de naftalina. E quem quiser usar cloroquina ou hidroxicloroquina que use. Como dizia o humorista Mussum, o forever é seu. Gente brava brasileira, chegou a hora de deixarmos de lado a hipocrisia e o fanatismo. Vamos pensar na vida. Depois de um ano e quatro meses sabáticos – usado basicamente para exagerar no apetite e no uso do álcool em gel – o próprio presidente da República mudou de ideia e, pelo menos publicamente, decidiu substituir a cloroquina por algo mais palatável e eficaz. Fernandistas, lulistas, dilmistas e bolsonaristas sem bandeiras agradecem e hoje são vistos na mesma fila de imunização.

Podemos ser ideológicos, malucos, serviçais, obedientes e neófitos no quesito negacionismo, mas não devemos ser bestas. Está provado que a vacina da discórdia salva vidas. Mesmo com idades acima do peso, ainda somos muito jovens para morrer. Chega de patrulhamento, chega de ódio. Patrulhar e odiar matam e, sem limites, deixam morrer. Somos um só povo. A imunização está à disposição dos grandes que a desprezam, dos eruditos que exigem provas de sua eficiência e dos pequenos e simples que a aceitam de olhos fechados. Quem a renegar, que morra em paz. Amém!

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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