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Brasil esquartejado

Perda de votos provoca insônia e aumenta o ódio de Jair Messias

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Foto/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Fábio Rodrigues Pozzebom

Embora aparentemente vencido, o tema assassinato e esquartejamento do indigenista Bruno de Araújo Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips é imorrível e certamente será lembrado por todo este século. Pela desgraça que representou para o Brasil, talvez ultrapasse algumas existências. E não interessa que a solidariedade do governo tenha sido atrasada, que a verborragia do presidente da República assustou gregos e baianos, tampouco que Dom e Bruno Pereira fossem malvistos pelos destruidores da Amazônia, alguns deles defensores declarados do atraso econômico-social nas próximas eleições. Que as conclusões da afirmação fiquem por conta do sagrado direito do eleitor ao silêncio.

A verdade é que, guardadas as devidas proporções e sem a covardia e crueldade armadas contra os dois mártires amazônicos, a história remete à saga de Policarpo Quaresma. Na obra de Lima Barreto, o personagem era apenas um patriota ímpar, cuja trajetória causava estranheza nas pessoas pelos seus ideais e coragem. Como Policarpo, Dom e Bruno também eram sonhadores e dedicaram suas vidas a estudar e tentar proteger as riquezas, os povos e a cultura indígena, a fauna, a flora e os rios da região. O que os dois não tiveram tempo de fazer foi sugerir a substituição do português, como língua oficial, pelo tupi-guarani.

Morreram antes, tocaiados por dois, três, cinco, ou 500 animais armados e protegidos sabe-se lá por quem. Esquartejados como bichos, o trágico desfecho de Dom e Bruno certamente também contribuirá para o fim antecipado do chamuscado “político” Jair Messias Bolsonaro. A falta de votos já decretou o encerramento do obscuro e cênico mandato do presidente. Quanto ao ser humano, melhor deixar a sentença para o Mestre dos mestres. Deus – não o do slogan governamental – se encarregará de filtrar e julgar as maledetas palavras protagonizadas por sua excelência contra o país, contra seu povo, principalmente contra os que rezam em cartilha diferente da que recomendou – quase obrigou – no início do insípido, inodoro e incolor governo.

Em uma delas, a selvagem tragédia foi sintetizada no vocábulo “malvisto”. O presidente não foi informado – se foi, cagou – para a possibilidade de o assassinato de Dom e Bruno constituir um crime político. Registre-se que, no Vale do Javari e em toda a Floresta Amazônica, ambos eram defensores dos índios, especialmente os isolados, e dos direitos humanos. Eles pereceram desempenhando atividades em benefício de nós, habitantes da Terra Brasilis. A frase não é minha, mas devo repeti-la à exaustão: “Assim com a dos brasileiros e estrangeiros residentes de qualquer matiz, as vidas dos indígenas importam”. Talvez não importem para aqueles que defendem o fim da Amazônia.

De concreto, a começar pelo que diz interna e externamente como autoridade máxima do país, Bolsonaro pouco ou nada produz de positivo. Como patriota esclarecido, é impossível não reconhecer que, associada ao abandono internacional que experimentamos há mais de três anos e meio, a imediata e negativa repercussão do assassinato dos dois defensores da Amazônia colocou o Brasil no varal das ditaduras veladas e mal acabadas. Para nossa sorte, acredito que com prazo de validade. Estou quase convicto de que poucos ainda têm dúvida de que, mal iniciada, mal conduzida e com um líder sem a liderança que imaginava ter, a tirania sonhada como longa está bem próxima do fim.

A irritação de sua excelência nesses últimos meses prova que a situação é a pior possível. Aliás, vale registrar que o estágio raivoso do presidente nada tem a ver com a alta do preço da gasolina. Isso é só a cortina de fumaça, uma preocupação dissimulada com o bolso alheio. Na verdade, o que tem provocado a insônia e o ódio presidencial é a perda diária de votos para aquele outro candidato que lidera as pesquisas. Melhor sua excelência começar a pensar no que fazer a partir de 2023. Sugiro aproveitar as festas juninas para colocar o joelho no chão, pedir proteção a Santo Antônio, São João e São Pedro e rogar que Deus acima de tudo o ensine a ser mais humilde. Quem sabe assim consiga algum novo enrosco em 2026. Por enquanto, ficamos como estamos, isto é, loucos por mudanças. Anarriê.

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