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Brasil

Perdido como José, povo sonha com Pasárgada

Wenceslau Araújo*

Publicado originalmente em 1942, o poema E agora, José? parece ter brotado na noite de domingo, 11, da cabeça brilhante de Carlos Drummond de Andrade (1902/1987). Farmacêutico por formação, contista e cronista por devoção, Drummond, quase 80 anos antes, certamente imaginou como estaria o Brasil e os brasileiros em 2021. Escrito para ilustrar o sentimento de solidão e abandono de um indivíduo na cidade grande, o texto pode ser transportado para os dias atuais como sinônimos de falta de esperança, de rumo e, sobretudo, de perspectivas. Também faz perguntas que fazemos diariamente para um personagem oculto e para as quais nunca tivemos respostas.

Aliás, nem tanto oculto. Em conversas com um senador, tentar derrubar a CPI da Covid-19, pede absurdamente o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal e ameaça ir para a “porrada” com outro senador. “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu… E agora, você?… que zomba dos outros…E agora, José?… sua incoerência, seu ódio – e agora? Musicado pelo não menos brilhante compositor e músico pernambucano Paulo Diniz, o poema pode ser entendido hoje como ato político, retratando uma população em situação social evidentemente vulnerável e cobrando soluções econômicas e, principalmente sanitárias para conter a maior tragédia humanitária da história do país. A exemplo do texto, vivemos um diagnóstico de impasses. De um lado, instituições e governadores preocupados com o avanço do vírus; de outro, o governo federal e apoiadores pregando a desobediência, o caos, uma disputa política irracional e certos de que tudo da CPI acabará em nada.

No atual cenário, o brasileiro está como José: “…sem cavalo preto que fuja a galope…e sem parede nua para se encostar…” Sem teogonia (narrativa da origem dos deuses), a mentira virou ferramenta oficial desde a campanha eleitoral de 2018. Elogiada, repetida e endeusada nos palanques, em redes sociais, emissoras de rádio e televisão e até nos encontros vespertinos nos jardins do Palácio da Alvorada, a patacoada tomou conta do governo como se fosse verdade absoluta. A sequência da mentirada ultrapassou todos os limites quando, em março de 2020, tivemos notícia do primeiro óbito decorrente da Covid-19. O mundo já estava sofrendo, se assustou, chorou, mas preferiu se unir e optou pelo planejamento.

Após enterrar centenas de milhares de mortos, a maioria dos governantes preferiu se preparar para encarar o problema de frente e não se escondeu em novas, absurdas e recorrentes mentiras. Na contramão do planeta, o Brasil estava bem próximo de algo que o brasileiro só tinha ouvido falar nas histórias de ninar de avós e de alguns pais mais antigos. Ao contrário dos que prezam pelo igual, vimos a gripezinha se transformar em uma das piores e mais letais pandemias dos últimos 100 anos. Exatamente como José, o povo se sentiu abandonado. O vírus era – e é – mortal, mas o governo federal insistia com o diminutivo, enquanto cientistas e médicos já o tratavam eufemisticamente como crise sanitária. No instante mais crítico de febre, o melhoral, a cibalena e as tubaínas recomendadas pelo inquilino do Planalto fizeram o mesmo efeito que faria uma linha de pipa para levantar um Boeing.

Vivemos a doença sem planejamento e com negacionismos cada vez mais absurdos, entre eles as afirmações contra a quarentena e as máscaras e a favor das aglomerações. O pior é que a “noite esfriou, o dia não veio” e, a cada centena de milhar de óbitos, o presidente da República cunhava uma frase nova para “acalentar” os familiares dos mortos. “Parem de chorar o leite derramado” foi a última pérola. Apesar de todas as dificuldades, para a maioria da população foi um importante período de aprendizado, introspecção, reflexão, descobertas religiosas, busca de novos posicionamentos e exacerbação de conceitos extremados, com destaque para o fundamentalismo de um lado e de outro.

Como cético, hesitei quanto a evolução pessoal desenhada por pregadores e terapeutas diversos logo após o surgimento da Covid-19. Não sou ateu, tampouco agnóstico, mas permaneço com dúvidas a respeito de qualquer mudança comportamental pelo simples fato do medo de alguma coisa. Estávamos longe de denominar a doença de pandemia, mas o povo mais crente no homem já afirmava com absoluta segurança que o vírus era sinônimo de melhorias no pensamento e na forma de ser. Lembro que, para especialistas em mente humana, fosse o que fosse, o mal chinês era algo enviado pelos deuses para depurar almas e corações.

Falavam, inclusive, da tendência de os sobreviventes serem pessoas mais felizes, menos rabugentas, mais solidárias e menos mesquinhas. Um ano e dois meses depois, restaram duas certezas: a gripezinha virou pesadelo e o ser humano pouco ou nada mudou. E José? “Com a chave na mão, quer abrir a porta, não existe porta…”. Quanto a mim, na dúvida Vou-me embora pra Pasárgada, caminho sugerido no poema de Manuel Bandeira, também musicado por Paulo Diniz. Será minha Canção do Exílio. Au revoir.

*Wenceslau Araújo é jornalista

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