O som do Quadradinho
Pesquisa da UnB investiga a identidade do sotaque brasiliense
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Às vésperas de completar 66 anos no dia 21 de abril, Brasília, a capital federal conhecida pela mistura de culturas, enfrenta uma dúvida constante: afinal, o brasiliense tem sotaque próprio? Uma pesquisa em andamento no Instituto de Letras (IL) da Universidade de Brasília (UnB) busca responder a essa pergunta, identificando padrões únicos na fala local.
Muitas vezes, identificar a origem de um brasileiro é simples, pois os “Rs” e “Ss” denunciam se a pessoa é do Rio, de São Paulo ou do Nordeste. Contudo, a dúvida paira quando um brasiliense entra na conversa, gerando a famosa frase: “eu não tenho sotaque”.
A cidade, construída em apenas 66 anos, foi formada pela união de trabalhadores de todas as partes do país. Esse caldeirão cultural criou um desafio para a linguística, tornando o sotaque de Brasília um objeto de estudo fascinante e complexo.
O professor do IL/UnB, Ronaldo Lima, que coordena a investigação, relata que o interesse surgiu de suas próprias vivências. Ao morar em Fortaleza, as pessoas identificavam que ele não era local, mas não conseguiam situar de onde vinha, percebendo uma “neutralidade” na sua fala.
Lima explica que este é o momento ideal para o estudo. Com a capital federal completando 66 anos, os pioneiros que construíram a cidade já são avós ou bisavós.
A pesquisa foca justamente na segunda geração de brasilienses, adultos que nasceram e cresceram na cidade, sem a influência direta da fala de seus pais migrantes. É o momento para verificar se existe uma estabilização de sotaque próprio na capital.
Embora o estudo não esteja concluído, os primeiros resultados já indicam padrões na pronúncia do “R” e do “S”, que se diferenciam do “R caipira” ou do “S” chiado carioca. A fala local parece evitar marcas fonéticas muito fortes.
De acordo com estudos anteriores sobre o tema na UnB, a fala brasiliense tem passado por um processo de “focalização dialetal”. Isso significa que, a partir da mistura de sotaques, um novo modo de falar está se estruturando.
A professora Stella Maria Bortoni, citada em análises sobre o tema, sugere que as gerações de brasilienses, que hoje compõem grande parte do DF, não adotaram as marcas mais conhecidas dos sotaques dos pais. O resultado é uma fala com sons mais neutros.
O estudo da UnB sobre identidade linguística (2014) já apontava, através de depoimentos, que a fala da cidade possui um “jeitinho” particular, mesmo que muitos nativos não o percebam. O sotaque é o resultado da mistura entre a vivência na região e a origem de cada família.
Alguns moradores, inclusive, acreditam que a mistura é tão grande que o sotaque está se dissolvendo, enquanto outros notam uma adaptação sonora rápida, típica de um centro urbano dinâmico.
A pesquisa da UnB, portanto, utiliza métodos sociolinguísticos para mapear como as letras “r” e “s” são pronunciadas na prática pelos residentes. O objetivo é entender se a mistura de sotaques migratórios gerou um novo dialeto ou apenas uma “convergência” para o neutro.
“Ninguém sabia identificar” de onde vinha, conta o professor Ronaldo sobre o seu próprio sotaque brasiliense, destacando a complexidade da pesquisa em andamento.
Com 66 anos, Brasília consolida não apenas sua arquitetura, mas também sua identidade social e cultural, onde o modo de falar reflete sua história única de construção.
A expectativa é que a pesquisa da UnB traga respostas definitivas sobre o “jeitinho” de falar do brasiliense, consolidando o sotaque da capital no mapa fonético do Brasil.