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CPI de araque

Petrobras vira galinheiro e acaba na mão da raposa Lira

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Foto/Imagem:
Mathuzalém Junior* - Foto Marcelo Camargo

Forjado nas fake news, o governo do tenente Jair Messias, também conhecido como propagador do ódio, acabou pego na própria arapuca. Refiro-me à proposta de criação da CPI da Petrobras, desmascarada com a rapidez de um raio, embora o pinóquio-mor tenha alcançado seu principal objetivo, que era a demissão do presidente da empresa, José Mauro Coelho. O cúmulo do cinismo ocorreu no fim de semana, quando os ocasionais proprietários de parte do Palácio do Planalto e eternamente “donos” do Centrão decidiram apoiar publicamente a tal comissão parlamentar. Absurda na causa e no efeito, a natimorta CPI de araque pelo menos serviu de mais uma cortina de fumaça para o governo encobrir suas próprias deficiências.

Aliás, deficiências que, sabe-se lá porque, só não constrangem os fanatizados apoiadores, para os quais o “caneco” e as calças são a mesma pessoa. São os mesmos que não veem diferença entre motosserra e motociata. Infelizmente, o país está entregue à sanha de quem avalia como comunista qualquer um que lute por mudanças no status quo político em que nos afundamos. A começar pela confusão que fazem entre a prosódia e a prosopopeia, entre a uva e a vulva, dizer que a Viúva Porcina e as viúvas da ditadura são aparentadas não é nenhuma brincadeira de mau gosto.

Para quem tem um mínimo de inteligência, piada de péssima tradução é o presidente da República e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), insistirem com a presepada de que estão preocupados com a alta dos preços dos combustíveis. A sandice chegou ao ápice com a história mal contada da CPI da Petrobras. Ambos – e todos os que apostaram nesse engodo – só não se deram conta de que o povo que não é gado tem tutano e percebeu a mentirada bem antes da renúncia do presidente da estatal. Só para ilustrar, até mesmo o entregador da quitanda da esquina sabe que a União é acionista majoritária da Petrobras, consequentemente responsável pela política de preços da empresa.

Também é a União, por meio do presidente da República, quem escolhe o dirigente e forma a maioria dos conselheiros da estatal. Ou seja, é ou não é sem noção alguém do governo sugerir uma CPI para investigar o governo? Nos memes menos grotescos, seria o mesmo que o cachorro morder o próprio rabo. Não entra na cabeça de um recém-nascido o governo investigando o governo. Pelo sim, pelo não, acho que Mauro Coelho, apesar das críticas, foi mais esperto. Com a renúncia, ele saiu na frente do lobo Bolsonaro e acabou rasgando o rascunho do discurso da raposa Arthur Lira, sempre de plantão para faturar às custas dos abestados.

O fato é que Bolsonaro e Lira estavam prontos para subir na Gillette e gritar ao povo brasileiro que a Petrobras é uma empresa comunista, comandada pelo Diabo e que a administração cristã do mito nada tem a ver com os preços diabólicos por ela definidos. Ora, quem é que manda na estatal? No teatrinho palaciano, também esqueceram de informar porque, mesmo com maioria no Conselho de Administração, o governo não conseguiu revogar a ordem de vincular os preços dos combustíveis às cotações do dólar e do petróleo no mercado internacional. Como Mauro Coelho é o terceiro presidente indicado por Bolsonaro a ser desgraçado pelo mesmo Bolsonaro, claro que jamais pensaram nisso. Disseram, mas nem os ingleses ouviram.

Principal mentor da queda de Coelho, Arthur Lira deixou bem claro em artigo publicado no domingo (19) na Folha, que não está para brincadeira. Duela a quién duela, o alvo da temporada é o comando da Petrobras. Por isso, ele virou crítico ferrenho dos comandos da empresa. A determinação é assumir o controle, trabalhar para baixar preços e, com o argumento de que a ganância não está acima do povo, tentar faturar alguns votinhos lá na frente. Resta saber até quando. De todo modo, terá de combinar com os russos do lado de lá, todos com mestrado e doutorado no tema ambição, sinônimo de cobiça, avidez, concupiscência e fome. Eles são sabedores de que ganância por ganância, melhor optar pelo ganancioso assumido. Hoje, honestidade fake é igual fotografia amarelada e esquecida num canto qualquer. Só serve para lembrar os erros cometidos ao longo da vida.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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