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Calamidade partidária

Políticos brasileiros geram mais memes satíricos do que leis

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Infelizmente, a percepção de que a política brasileira há tempos serve apenas como fonte de piadas virou fato. De tão comuns, os escândalos de corrupção, os acertos de bastidores para defenestrar adversários e o comportamento caricato de agentes públicos transformou o cenário político em absoluto caos social. Desinteressantes, sem respeito do eleitorado e normalmente descritos como integrantes de um circo, os deputados e senadores desta e da última legislatura geram muito mais memes e sátiras humorísticas do que leis. É o que alguns especialistas denominam de calamidade político-partidária.

E quem é o comediante-chefe? Quem? Quem? Acho que cada um dos patriotas tem o seu, o que prova que o humor decorrente da política é uma questão pluripartidária. Semana passada, antes do início da sessão convocada para derrubada dos vetos presidenciais ao projeto da dosimetria de penas, passei defronte o plenário do Congresso. Diante de uma gritaria que, mais tarde, soube tratar-se de algo comum durante as sessões bicamerais, me ative para ouvir, entre outros adjetivos, termos como ladrão, sem vergonha, bandido, salafrário, vigarista, traíra, vendido e corrupto.

Perguntei ao pessoal da portaria se era briga em função da polarização ou dos acalorados debates posteriores à rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. Entre surpreso, incrédulo e boquiaberto, fui informado pelo segurança do plantão que era apenas Davi Alcolumbre (União-AP) fazendo a chamada dos deputados e senadores para a votação que resultou no oba oba parlamentar em favor dos meninos e meninas que haviam deixado os cultos evangélicos para enxovalhar as sedes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.

Nada de anormal para os homens públicos que nunca, em tempo algum, decepcionam o país. É por isso que, ainda que somente nos embargos auriculares com meus botões, tenho afirmado para o meu eu que a partir de agora votarei exclusivamente nas moças consideradas de vida fácil, aquelas com as quais os homens perdem fazendas, castelos, automóveis de luxo, estouram cartões de crédito e, no fim e ao cabo, terminam na rua da amargura. Questões de foro íntimo. Quanto à minha decisão, a explicação é, além de simplória, lógica, patriótica e familiar: me cansei de votar nos filhos delas.

Além da preocupação visceral de nossos deputados, senadores, governadores, prefeitos e vereadores com o povo, é elogiável a vocação religiosa de suas excelências. Sem medo de errar, diria que temos os políticos mais religiosos do mundo. Em nome de Deus e de todos os santos, em cada obra elas (as excelências) exigem e levam um terço. Não à toa, quando alguns patriotas lembram de um certo mito como um enviado de Deus, me lembro logo das pragas do Egito. Peço perdão a Deus por todos os votos que já dei em vão.

Como errare humanum est, acho que estou perdoado pelo simples fato de não conviver mais proximamente com políticos. Aí seria a prova dos nove ou a forma mais tenebrosa de eu pagar meus pecados. Lembro do aluno de uma professora amiga que, diante de uma indagação oral a respeito da profissão paterna, preferiu tergiversar para fugir do assunto. Para não dizer aos colegas de classe que era filho de um deputado, o menino saiu pela tangente e disse que o pai era dançarino de uma boate gay, daquelas que os homens dançam com uma tanguinha e de máscara na cara. Eu faria o mesmo.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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