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Profecia acertada

Políticos, como fraldas, precisam ser trocados com bastante regularidade

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Autor/Imagem:
Arimathéia Martins - Foto de Arquivo

Estou fora do Rio de Janeiro faz algumas décadas. Tenho saudades de minha cidade, mas adoro estar longe, principalmente quando ouço dizer que mais um governador (o sétimo) foi preso ou está enrolado com a Justiça. Falo com pesar, mas, ao mesmo tempo, tenho um baita orgulho de mim mesmo por jamais ter precisado justificar à consciência a escolha de pelo menos uma das sete excelências locais transformadas em réus. Aliás, talvez tenha sido o medo de um dia ser eleito governador que me fez sair correndo do meu, do seu, do nosso Rio de Janeiro.

Com todo respeito aos seguidores do clã cujo medo de ser preso é do tamanho do soluço daquele que se autodenomina mito, mas também sinto um orgulho danado toda vez que ouço um patriota aliado falando. Orgulho de não ter votado em nenhum deles. Não é piada. É sério. Quando me perguntam por que não faço piadas diárias sobre os políticos, a resposta é rápida e rasteira: Elas não cabem mais, pois, infelizmente, eles já roubaram a graça.

Sou do tempo em que a política era menos circense e os políticos mais românticos. Hoje, devido ao aumento escorchante da gasolina, da energia, dos salários da politicalha e da corrupção, me cabe informar aos preclaros leitores e eleitores que a luz do fim do túnel foi cortada.  Por exemplo, quase fui “vítima” do romantismo político dos anos 80. Votei e, com ajuda de milhares de cidadãos cariocas, consegui eleger senador um desses empresários do ramo de frango assado vegano.

Tempos depois fui procurá-lo em busca da prometida vaga. Ele cumpriu. Estava lá à minha disposição a vaga 43 do estacionamento público do Senado Federal. Depois disso, passei a concordar com meu avô Aristarco Pederneira, responsável pelos ensinamentos primários sobre a política brasileira. Lembro da primeira indagação como se fosse hoje: – Qual o tempo verbal na frase eu procuro um político honesto e que trabalhe para o povo. É claro que, ainda meninote, não soube responder. – Tempo perdido, emendou o velho portuga.

A partir dessa lição, passei a ter a certeza de que a criatura mítica mais difícil de encontrar é o político honesto, aquele que costuma ser atencioso e que, após ser eleito, faz alguma coisa. Por isso, pouco me importando que ele tenha cultura ou tradição, assino embaixo do pensador que, no início do século passado, profetizou que todos os políticos um dia se assemelhariam às fraldas, isto é, ambos precisariam ser trocados regularmente e pelo mesmo óbvio motivo.

Disse que não faria piadas e não farei. Tudo isso é a mais pura verdade. Quem nunca ouviu que o oposto de “pró” é “contra”? Portanto, o oposto de progresso é…o Congresso. Convencido de que, por pura cortesia, os ladrões raramente visam as casas de políticos, pelo menos uma vez na vida me comovi assistindo a uma daquelas chatas e previsíveis sessões do Congresso Nacional. Refiro-me à reunião em que bolsonaristas, lulistas, ronaldistas e golpistas se uniram para aprovar o uso medicinal da maconha com o objetivo de aliviar a dor da artrite. Descobri ali que, quando eles querem, se unem para o bem-estar das articulações.

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