Curta nossa página


Shakespeare/Cervantes

Pontos de toques e contrastes

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Foto Divulgação

Dois gênios da literatura ocidental. Shakespeare, “o Bardo” e Cervantes, “o criador de D. Quixote, o Cavaleiro da Triste figura”.

Dois escritores de dimensão universal, profundos e espirituosos virtuoses da pena e do papel, um inglês e o outro espanhol. Além da literatura, o ponto de toque entre os dois fica restrito a data da morte – 23 de abril de 1616 –, além deste fato, o destino lhes designou sortes e azares bem distintos.

Shakespeare nasceu no fim de abril de 1564 em Stratford-upon-Avon, Inglaterra; já Cervantes nasceu 17 anos antes em Alcalá de Henares, nas cercanias de Madri, Espanha.

O escritor inglês foi educado na prestigiosa escola de latim de sua cidade natal, lá aprendendo os fundamentos da retórica e da poesia, Cervantes, que provinha de uma família de nobres arruinados, provavelmente estudou teologia na Universidade de Salamanca, Espanha.

O SUCESSO E O PRISIONEIRO

Shakespeare seguiu fidalgo, bem-nascido, apaixonado pelas letras e especialmente pelo teatro. Cervantes assumiu o curso de aventureiro incorrigível.

CERVANTES:- aos 22 anos, mudou-se para Roma – fugindo da Justiça espanhola. No ano seguinte, alistou-se numa companhia de soldados e passou a servir como camareiro do futuro cardeal Giulio Acquaviva. Em outubro de 1571, participou da batalha naval de Lepanto, contra o Império Otomano. Foi ferido e, anos depois, retornou à vida de soldado. em 1575, Cervantes foi capturado ao retornar com a frota naval para a Espanha e, juntamente com o irmão Rodrigo, mantido como escravo em Argel por cinco anos. Para pagar o resgate, o pai empregou toda sua fortuna. Nessa altura da vida, Cervantes passou a trabalhar como atacadista e fornecedor da frota de guerra da Espanha. Devido a negócios malsucedidos, voltou a ser preso em 1597-98 e em 1602. No cativeiro começou a escrever sua obra-prima: “O engenhoso fidalgo Don Quixote de La Mancha”, parodiando os romances de cavalaria populares na época, e que seria lançado em duas partes, em 1605 e 1615.

SHAKESPEARE:- o Bardo de Avon, por sua vez, durante cerca de sete anos, no fim da juventude, desapareceu e retornou com 28 anos obtendo projeção como dramaturgo. Como ator, ele integrou a trupe de teatro Lord Chamberlain’s Men, rebatizada como King’s Men sob o rei James 1º. E logo brilharia na Inglaterra elisabetana com suas montagens e peças teatrais. Ao contrário do espanhol, que nunca conseguiu viver da literatura, Shakespeare cedo gozava de sucesso como escritor e negociante. Sócio do Globe Theatre e, mais tarde, do Blackfriars Theatre, com plateia coberta, inovando o teatro até então conhecido. Ele acumulou fortuna e escreveu uma das mais impressionantes e geniais obras de toda a literatura mundial.

Passados 400 anos, talvez o ponto de maior congruência entre Shakespeare e Cervantes seja o foco temático. Apesar da distância geográfica e das biografias díspares, ambos enfocaram repetidamente em sua obra o conflito entre ideal e realidade, tematizando a questão “O que é realidade, o que é sonho?”.

Assim, enquanto em ‘Dom Quixote’, Miguel de Cervantes deixa o leitor na dúvida se seu protagonista é um patético palhaço senil ou um idealista arrebatado, em “Sonho de uma noite de verão” ou em “A tempestade”, William Shakespeare engendra um intrincado labirinto de estranhamentos, no qual verdade e ficção se confundem sem cessar.

Vida de luxo para um, prisão para o outro.

Desde 1995, o dia 23 de abril – dia da morte dos dois gênios -, foi oficializado como o Dia Internacional do Livro e celebrado em homenagem a William Shakespeare e a Miguel de Cervantes Saavedra.

………………………………..

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e leitor voraz e apaixonado por literatura. Vive na Guarda do Embaú, litoral de SC.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.