Dinastia desobediente
Por que tem gente que se apega tanto ao poder como uma raiz em solo fértil?
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Nesses tempos em que se busca o poder acima de tudo e de todos, a melhor frase que ouvi não é de um pensador, de um escritor, filósofo ou político do bem, aquele que está em extinção. Ouvir de alguém do povo que o mais importante nos dias de hoje não é ter bens, autoridade ou poder, mas ser referência e fazer a diferença na vida das pessoas, é, no mínimo, sonhar que o mundo ainda pode ter solução. No Brasil, determinadas autoridades que estão ou já estiveram em um dos Três Poderes se acham tão poderosas que naturalmente esquecem que o poder não lhe foi dado gratuitamente.
Alguns sequer lembram que existem normas que devem ser respeitadas, sob pena de da inexistência do poder. Didaticamente, quando o homem entende que poder é diferente de autoridade, a consequência natural é a liderança. Como diriam os poetas do Apocalipse, o poder não grita, sussurra com autoridade. Não é o que fazem os senhores das armas e da guerra, não é o que pensam os donos das canetas, não é o que dizem os que abusam (ou abusaram) do poder político e não é o que juram os candidatos vinculados a uma dinastia que alcançou autoridade, mas fugiu desonrosamente da obediência.
O resultado da desobediência acabou por envenenar o cidadão que, surdo e cego, tentou tomar toda a autoridade do país para si, não permitindo a divisão de ações econômicas, sociais e políticas em benefício da população. Terrivelmente saturado dos que só querem poder para mentir com autoridade, o povo, apelidado temporariamente de eleitor, parece ter aprendido que o maior de todos os deslizes de uma sociedade plural é atribuir demasiado poder e insuspeita autoridade a um apedeuta, a ponto de, sem nenhuma consulta prévia, alçá-lo ao comando de uma nação.
Parafraseando um provérbio popularíssimo, quando a busca pelo poder é demais não é só santo que desconfia. Vantagens fáceis ou bondade extrema muitas vezes escondem segundas intenções ou golpes. Aliada ao trabalho de dominação futura do Senado Federal, a excessiva preocupação do clã Bolsonaro em desqualificar a pessoa e a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva indica que há algo muito mais grave no ar do que simples aviões de carreira.
Antevendo a possibilidade de uma derrota nas urnas presidenciais, a família desde já se arvora para ter maioria absoluta de senadores na próxima legislatura. Não se trata somente de uma expectativa política, na medida em que é o Senado a Casa responsável por processar e julgar, nos crimes de responsabilidade, presidente e vice-presidente da República, ministros do Supremo Tribunal Federal, procurador-geral da República, Advogado-Geral da União, além de membros do Conselho Federal de Justiça e do Conselho Nacional do Ministério Público. Por isso, a sugestão de um leigo é que haja prudência e suspeita de que há um interesse oculto por trás dessa ânsia.
Já vimos e sentimos que conceder poder a um maluco significa transformá-lo em um maluco com poder. Por mais que tentem, não há como negar que todos aqueles que querem o poder a qualquer preço costumam não ter escrúpulos e normalmente são capazes de tudo. Donald Trump, Benjamin Netanyahu, Vladimir Putin e os aiatolás desmentem os que mentem. Não consigo alcançar nenhuma, mas gostaria de conhecer pelo menos uma única razão sensata para que a família Bolsonaro não consiga viver sem poder. Por enquanto, não adianta buscar respostas com Jair, Michelle, Flávio, Carlos, Eduardo e Renan. Sem poder, qualquer um deles se sentirá mais incomodado do que um búfalo no verão da Noruega. Prefiro achar que quem muito quer mostrar, muito tem a esconder.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978