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Mundial Interclubes

Porcotênia

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

A propósito de Palmeiras 1 x Botafogo 0, recorri a meu bom e velho conto Flaporco e brinquei com os gajotécnicos (ou tecnogajos), cometendo estas maltraçadas. Espero que vocês gostem.

Foi um jogo inesquecível, um grande clássico do Brasil atual, um Porcatênia (de porcada, Parmera, versus estrela solitária, quer dizer, estrela com tênia, ou seja, Botafogo. E o mais estranho é que a tênia costuma parasitar os porcos, pode ser uma quinta coluna da suinada metida no fiofó dos pobres estrelados).

A partida foi disputada não no Allianz Parque, do Verdão, nem no estádio Nilton Santos, do Fogão, mas no Lincoln Financial Field, da Filadélfia, Estados Unidos, pelo campeonato mundial de clubes. Grenal, Majestoso, Sansão, Clássico dos Milhões, tudo isso ficou pra trás. Já dizia o poeta Luiz de Camões, “Cesse tudo que a musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta”.

E como se alevantava! A porcada era mais ofensiva, as tênias provavelmente prejudicavam os estrelados. Mas, além dos 22 atletas em campo, dois outros personagens fizeram vibrar o público: Abel e Renato.

Em termos religiosos, os dois pertencem a universos distintos. O pastor Abel, a primeira vítima de homicídio na Bíblia, é um mero coadjuvante, entra mudo e sai calado, não lhe foi concedida uma mísera fala pelos autores (minha humilde opinião) ou pelo Divino Autor (opinião de muitos religiosos cascudões) do enredo. Por sua vez Renato, nome de origem latina, significa ”nascido de novo” e foi muito utilizado nos círculos cristãos em referência à renovação espiritual através do batismo.

Já nos domínios do desporto, a vitória palmeirense exorcizou uma sequência de cinco jogos sem vencer o Fogão. Mérito de dois gigantes do futebol brasileiro e de dois técnicos estudiosos, brilhantes, ambos pertencentes a um nobre povo, ambos tataranetos de heróis do mar, talvez descendentes distantes do poeta do valor que se alevanta, vai saber…

Tudo começou quando um jogador fez uma falta violenta e não recebeu nem cartão amarelo. (Qual, de que time, não tem a menor importância, a partir daqui a coisa é inventada. O mister que deu início ao fuzuê também não, mas a bem da verdade – na imaginação do contista, para ser bem preciso –, cabe informar que foi o do esquadrão da gloriosa estrela com tênia, que já estava levando no rabo por 1 x 0. A equipe, não o técnico).

O treinador do atleta derrubado explodiu, sem perceber que estava com o microfone ligado aos autofalantes do estádio:

– Chiça! Os gajos estão a descer a porrada, chegou a rasgar a camisola.

O outro técnico, também ligado aos autofalantes, tratou de apaziguá-lo:

– Calma, o colega precisa conter-se. O prélio está porreiro.

– Porreiro é o caralho. É muit roubo!

– O amigo está nervoso. Fizemos um golo, podemos meter mais…

– Não sou teu amigo, ó pá. E vai meter golo na senhôra tua mãe. Compraste o árbitro? Se calhar, mamas-lhe a pila, por isso ele protege a tua equipa.

– Tu é que fazes broche nele!

– Paneleiro!

– Cheché!

– Cabrão!

– Vai berdamerda!

– Tu é que vais, que os meus são mais pretos!

– Vamos resolver à antiga portuguesa!

– Vamos sim, grandecíssimo filho de uma puta!

E partiram pra porrada. Dois minutos inesquecíveis de socos e pontapés, que fizeram vibrar os brazucas, emporcalhados e teniados, presentes no estádio da Filadélfia. Parecia uma partida do Brasileirão. Por milagre, o pega pra capar não se estendeu às arquibancadas, talvez porque assistir à pancadaria entre os dois portugas estava um barato, já valia o ingresso. Sem falar na chance única de os brazucas, tanto os de preto e branco quanto os de verde, enriquecerem seu vocabulário com dezenas de ofensas e palavrões lusitanos, transmitidos pelos autofalantes para todo o estádio. E para desespero dos gringos que assistiam ao prélio (sim, havia alguns), que perguntavam “What is pila? What is broche? What is paneleiro? What is cheché?”, sem que ninguém lhes pudesse esclarecer.

No final, Abel e Renato receberam cartões vermelhos, o Palmeiras avançou às quartas de final do mundial de clubes e o Botafogo está voltando para casa pra ser o melhor time do Rio, que, por enquanto, o Palmeiras, o Flamengo e o Fluminense continuam na disputa, estão fora, e o Vasco, tadinho, não conta.

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